A cidade sem pastores

Por Nilson Pereira de Moura – Bel em Teologia e pastor da ICB (29.4.2012)

Mateus 9:35-37

“Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor. Então disse aos seus discípulos: A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Peçam, pois ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita”.

A sociedade em que vivemos é na sua maioria urbana com suas vantagens e desvantagens. A vida na cidade é muita fragmentada e individualizada – cada um cuida dos seus próprios interesses. Contrariando o ensino da Sagrada Escritura que nos ensina o amor, a solidariedade e o interesse mútuo, conforme Filipenses 2.3-4: “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, humildemente considerem os outros superiores a si mesmo. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses outros”. Mas o individualismo é característico da sociedade pós-moderna e da era da tele cibernética. Onde as pessoas vivem tão conectadas, mas ao mesmo tempo tão sozinhas.

Como cristãos somos herdeiros de uma modelo religioso da valorização do espírito em detrimento do corpo, tudo é proibido, tudo é pecado, menos a prática religiosa em que muitos confundem – vida religiosa com vida espiritual. Além do mais, uma religiosidade ocidentalizada, ou melhor, europeizada com viés norte americano. A padronização da aparência e da vestimenta (do terno e da gravata) e da linguagem, da música, da cultura nos leva a concluir que nada é novo, tudo é copiado. Inclusive, esse padrão acaba demonizando toda nossa cultura.

E o que a cidade pós-moderna e sem pastores tem a ver com tudo isso? Tem a ver com uma sociedade que se encontra doente – neurotizada, esquizofrenizada e carregada de todo tipo de sociopatia e psicopatia. Esse quadro doentio reflete em todos os níveis de relacionamentos: ambiente familiar, amizades, ambientes de trabalho, escolas, clubes e igrejas.

Os pastores, que são os verdadeiros líderes espirituais, devem ter consciência do mundo em que eles se encontram envolvidos, para poderem receitar ou darem as orientações corretas para o aglomerado de pessoas doentes da cidade. Quando os verdadeiros pastores não fazem suas tarefas de pastor aparecem os charlatães e falsos pastores ensinando topo tipo de heresia e engano, como por exemplo: a teologia das primícias, a teologia da prosperidade, a teologia da quebra de maldição e tantas outras bobagens que levam os fiéis a cometerem erros lamentáveis em nome de Deus.

A Bíblia nos dá toda a instrumentalidade e orientação para se realizar um verdadeiro trabalho pastoral. Na perícope lida Jesus orienta os seus discípulos como realizar um verdadeiro pastorado. O primeiro passo é conhecer as realidades dessa cidade. O versículo 35 diz que Jesus ia “passando por todas as cidades e povoados”, ele não estava inerte, ele anda e vê as aflições do povo. ANDAR PELA CIDADE – (V35). Os pastores precisam andar mais pela cidade para presenciar as muitas misérias que afligem os seus habitantes – as drogas e a violência generalizada têm assolado todas as camadas da sociedade. A meu ver os pastores vivem em seus “guetos religiosos” e poucos conhecem sua cidade de fato. São profissionais da religião. Poucos conhecem os problemas econômicos, sociais, políticos e religiosos em que seu povo está envolvido. Vivem em outra realidade social. Em João 10.1-21 o próprio Senhor Jesus se qualifica como o bom pastor que dá a vida por suas ovelhas e que as conhecem e que também elas o conheciam em oposição aos que não são verdadeiros pastores que vêm para “roubar, matar e destruir”, porque são ladrões e enviados do Diabo. Os pastores devem ENSINAR E PREGAR BOAS NOTÍCIAS (V35) – Jesus que é um Mestre por excelência passa pelas cidades e povoados e vê esse povo sofrido e desorientado, ensina e traz novidade de vida para essa gente sofrida e doente. Quando Jesus se apresenta na sinagoga na cidade de Nazaré, ele diz que veio como ungido do Deus. É o que Lucas escreve no capítulo 4.18: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”. No capítulo 9.35 de Mateus é dito que Jesus ensinava e pregava “boas novas e curava as enfermidades e doenças”. Porque ele vê o povo desamparado. Ele também VÊ AS NECESSIDADES DA MULTIDÃO (V36). Esse é um grande ensino para os pastores – estar atentos às necessidades das ovelhas. Jesus via com o coração e compaixão as necessidades de suas ovelhas, ou seja, ele age de acordo com a agenda do povo que estava aflito e desemparado como ovelhas sem pastor. Ele via uma cidade sem líderes que intercedam pela multidão de sofredores. Sabemos pela história a situação dos contemporâneos de Jesus que eram oprimidos e explorados pelos vários impérios da época, principalmente pelos romanos. Jesus então, vê o povo e suas ovelhas com o coração e sofre junto com elas, isso é compaixão. Sofrer junto. Movido pelo amor e pela compaixão ele CURA OS DOENTES (V35) – Ele não fica passivo diante de tanta aflição e desamparo das suas futuras ovelhas. Ele cura as suas “enfermidades e doenças”. Em outro episódio (Mateus 11.2-6) João Batista da prisão manda os discípulos dele perguntarem a Jesus: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?”. Ele manda uma resposta breve, dizendo: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: cegos veem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres, e feliz aquele que não se escandaliza por minha causa”. É o cumprimento da profecia e a confirmação do que ele disse em Lucas 4.18. Esse é o bom pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Finalmente, ele ensina aos discípulos a PEDIREM AJUDA AO SENHOR DA COLHEITA (37-38) – o texto diz que Jesus orienta seus discípulos para que vejam o campo e perceba que a colheita é muito grande, por isso, precisa de trabalhadores, ou seja, de pastores segundo o seu coração compassivo e que saibam sofrer junto – Ele diz aos discípulos para pedirem ao SENHOR que mande pastores para a colheita na cidade sem pastores. O apóstolo Pedro escrevendo sua primeira carta no capítulo 2.9-10, entende que todos os cristãos são chamados para serem sacerdotes reais, nação santa, povo exclusivo de Deus, geração eleita para anunciar as “grandezas de Deus”, um povo escolhido pelas misericórdias de Deus – chamados das “trevas para a sua maravilhosa luz”. Todos os cristãos exercem o sacerdócio, não estão, portanto, mais nas mãos de manipuladores da fé.

CONCLUINDO, uma cidade sem pastor precisa de pastores que compreenda esse grande rebanho urbano e compartilhe o mundo em que estão vivendo. Precisam saber suas verdadeiras necessidades. O mundo que estamos vivendo é o mundo da pós-modernidade fragmentada, individualista, desorientada, egocêntrica, consumista e doente com pessoas que vivem tão juntas e conectadas na internet, e ao mesmo tempo, tão solitárias, vazias e angustiadas. Os pastores precisam ser verdadeiros líderes espirituais que andem juntos com essa gente, ensinando e trazendo boas notícias do Reino de Deus: trazendo cura física, psicológica, emocional e espiritual. Pastores que vejam as necessidades, as aflições e o desamparo desse rebanho – pessoas que vivem na cidade como ovelhas sem pastores. Pastores que saibam pedir ajuda ao Senhor da vida para que mande pastores de coração e compaixão para sua colheita e para pastorear o seu rebanho com amor no coração. Porque o rebanho é de Deus e ele pede: “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus”. (Atos 20.28).

Nilson Pereira de Moura

Sobre Nilson Pereira de Moura

Nilson Pereira de Moura nasceu em 1957 na cidade de Posse-GO. É casado há 25 anos e pai de três filhos. É bacharel em Teologia, com concentração em Ministério Pastoral, pela Faculdade Teológica Batista de Brasília – FTBB (1999). Ordenado ao Ministério Pastoral pela Igreja Cristã de Brasília, em 09 de dezembro de 2001, em Concílio presidido pelo Pastor Júlio Borges de Macedo Filho. Foi posteriormente aprovado em Concílio Especial de reconhecimento de exame realizado pela ICB pela Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, em 22 de setembro de 2009. Pastoreou como membro do Colegiado de Pastores na Igreja Batista do Jardim Paquetá, na cidade de Planaltina de Goiás, no período de março de 2008 até 13 de novembro de 2010, período que julga de extrema relevância para o seu Ministério Pastoral. Após essa experiência gratificante retornou à Primeira Igreja Batista de Sobradinho-DF (PIBS), onde ocorreu sua conversão em dezembro de 1980 e batismo em 23 de agosto de 1981. Permaneceu como pastor membro na PIBS de 14 de novembro de 2010 até 19 de julho de 2011, quando resolveu retornar à equipe pastoral da Igreja Cristã de Brasília em 24 de julho de 2011, onde foi recebido com grande alegria e unanimidade. É muito grato a Deus pela experiência adquirida na caminhada cristã. Em 18 de agosto de 2013 foi recebido como membro efetivo na Primeira Igreja Batista de Sobradinho – PIBS/DF. No dia 30 de novembro de 2014 retornou à Equipe Pastoral da ICB de copastor. Em 19 de abril de 2015 por aclamação, retornou a PIBS, na qualidade de membro efetivo. Servidor público federal, aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, onde ingressou em 03 de janeiro de 1979. Atuou na Área de Gestão de Pessoas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda-SPE/MF, e na Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento – SPU/MP, no assessoramento técnico da ASTEC, em gestão de Pessoas. Posteriormente, exerceu a função de parecerista na Secretaria de Recursos Humanos – SRH/MP, tendo encerrado a sua participação no MPR na Subsecretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão, onde exerceu os cargos de Assistente, Assessor Técnico e Chefe de Divisão por vários anos. Encerrou sua carreira no IPEA ocupando a atribuição de Auditor substituto, na Auditoria Interna do órgão. Em paralelo, exerceu o cargo de Diretor de Administração e Finanças da Associação dos Funcionários do IPEA-AFIPEA, cargo pelo qual foi eleito para o Biênio 2011/12, acumulando também o cargo de Secretário-Executivo da AFIPEA-SINDICAL. Cargos exercidos até 30 de maio de 2013.