A Comunicação com Deus

Texto: Hebreus 1:1-4                                                                                                                                   Wilson Xavier Dias

I – Introdução

A carta aos Hebreus, de autoria desconhecida, foi escrita aos judeus convertidos, que provavelmente viviam na Itália.

Seu objetivo era deixar claro a todos que Jesus era o cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Que toda a expectativa dos profetas e a esperança dos judeus, se cumpriram em Cristo. Não havia, portanto, razão em se manter uma religião cujos rituais todos existiam para expressar a esperança de uma realidade que já havia chegado, uma promessa que já havia se cumprido. O cristianismo se apresentava então, não como uma adaptação do judaísmo, uma recauchutagem, mas como a expressão de uma nova forma de relacionamento de Deus com os homens. Uma etapa havia se encerrado e uma nova proposta de comunhão se apresentava.

“Havendo Deus outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas…”  O judaísmo era uma religião toda fundamentada na mensagem profética. Mesmo a estrutura do estado, a estrutura do culto, tinha uma conotação profética. Deus, ao chamar Abraão, havia dito que nele todas as nações da terra seriam abençoadas. O estado de Israel deveria ser um exemplo. Sua estrutura e funcionamento deveriam ser um aperitivo do Reino. Tudo apontava, era sinal, de um mundo futuro onde o pecado seria vencido, a justiça vivida e a comunhão direta com Deus restabelecida. O Messias seria o cumprimento dessa esperança.

Ora, Jesus era o Messias, era o cumprimento da promessa. Não havia mais sentido em se cumprir ritos que apontavam para um futuro, se esse futuro já havia chegado. Alguma coisa havia mudado e implicaria em mudanças na vida de todos.

O autor de Hebreus diz que a diferença básica era uma questão de comunicação. Deus havia falado até então através dos profetas, dos rituais e costumes judaicos. A partir daí Deus estava falando através de Jesus Cristo. Uma nova proposta se apresentava, através de um novo interlocutor, sob uma nova forma. Na transfiguração se apresentaram Moisés, Elias e Jesus. Moisés foi o criador do estado de Israel, era o representante da Lei. Elias era considerado um dos maiores profetas de Israel e era o representante dos profetas. A Lei e os Profetas eram a base do Estado, eram a baliza dos costumes de Israel. Mas naquele momento a voz de Deus soa e declara: “Este é o meu filho amado. A Ele ouvi.” O interlocutor havia mudado. A Igreja não era mais o sinal do Reino que se aproximava. Era o sinal do Reino presente. O Emanuel se apresentou.  O acesso a Deus não exigia mais a estrutura do sacerdócio. O véu foi rasgado. O acesso direto a Deus foi aberto a todos. O perdão dos pecados não exigia mais sacrifício, rituais de morte. O sacrifico de Cristo foi definitivo. A exigência do sacrifício foi substituída pela graça. A lembrança do poder do pecado, que levava à morte, simbolizado no sacrifício diário, foi substituída pela alegria da graça. A Ceia era a lembrança da vitória sobre o pecado, do sacrifício definitivo.

O escritor de Hebreus fala que a religião é uma forma de comunicação: a palavra dos profetas era o canal de comunicação de Deus para a realidade que se apresentava até aquele momento. A realidade mudou, a forma de Deus se comunicar também mudou. Deus tem compromisso com a mensagem que Ele quer transmitir, não com a forma que Ele usa.

Geralmente ao estabelecermos os rituais de nossas igrejas, também fixamos as maneiras pelas quais entendemos que Deus se comunica conosco. Padronizamos e deixamos de perceber a criatividade de Deus para se comunicar.

II – Algumas formas que Deus usou para se comunicar

Com Adão e Eva Deus falava cara a cara, não havia o pecado para atrapalhar.

Em algumas situações Ele falou através de anjos. Abraão, os pastores.

Em outras a pessoa ouvia uma voz. Deus se comunicava diretamente. Samuel.

Na maior parte das vezes Deus falava com o povo através de outras pessoas, os profetas.

Em algumas situações Deus falou através de formas inusitadas, como a jumenta de Balaão, ou em outra ocasião, apareceu uma mão escrevendo na parede.

Deus falou através de sonhos, como no caso de Pedro, visões, como no caso de Isaías, Ezequiel, João.

Em algumas ocasiões Deus usou métodos, para nós hoje, não convencionais, para demonstrar sua vontade: a sorte de Jonas foi decidida através de um jogo de dados, a escolha do sucessor de Judas, Matias, também foi feita lançando-se sorte. Havia o Urim e Tumim, que eram instrumentos utilizados pelos sacerdotes para saber a vontade de Deus, através de sorte.

Resumindo, Deus não tinha e não tem um padrão de comunicação para se relacionar com os homens. Ele usa os métodos que para determinada situação, se mostram mais eficazes.

III – Como discernir a voz de Deus?

Hoje, todos concordam, a comunicação é um dos temas mais importantes do mundo atual. Se por um lado, no passado a falta de informações era um problema sério, hoje acho que um dos problemas sérios é o excesso de informações, que faz que percamos a verdadeira dimensão do assunto em questão. Uma forma de esconder uma verdade é diluí-la no meio de uma infinidade de informações.

Na esfera espiritual também enfrentamos o mesmo problema. Vivemos uma época de excesso de “profetas” falando em nome de Deus.

E como podemos no meio de tanto ruído, tanta gente querendo ser o porta voz de Deus, discernir e filtrar a voz de Deus?

Realmente hoje é difícil ouvirmos uma voz audível e constatarmos que é a voz do próprio Deus. Mas no meio do burburinho todo, e em meio a tantas vozes, podemos ter alguns critérios para sabermos se uma mensagem veio de Deus ou não:

1 – Os princípios do Evangelho e do Reino.

Esse é o primeiro critério. Deus nunca vai falar algo que contrarie sua própria natureza ou os princípios do Reino. Se não for demonstração de amor e da graça, com certeza não é palavra de Deus.

2 – Não pode haver contradição.

Deus não se guia por exceções. Ele é coerente com seus princípios em todo os lugares, momentos e situações. O que Deus afirma aqui deve ser o mesmo em qualquer lugar.

3 – O foco da mensagem.

Se uma palavra é usada para exaltar uma pessoa, uma instituição, uma igreja ou uma obra, não é palavra de Deus, é palavra de homem revestida com a imagem de Deus.

Vimos alguns critérios para discernir a voz de Deus no meio do ruído existente, vamos ver agora, ao contrário, alguns fatores que podem nos impedir de reconhecer a voz de Deus, quando Ele está falando:

1 – Quando Deus fala através de meios ou interlocutores não convencionais ou não esperados. Se sacralizamos a forma, não conseguimos distinguir a voz de Deus quando Ele fala através de outras formas, se achamos que Ele só pode falar através de determinadas pessoas, não vamos reconhecer quando Ele falar através de outras vozes;

2 – Quando a vontade de Deus contraria a nossa vontade, ou aquilo que achamos que deveria ser o certo, como no caso de Jonas;

3 – Quando a vontade demonstrada por Deus não se encaixa na nossa forma de entender vontade dele, como no caso de Pedro na visão do grande lençol com os animais imundos.

E hoje, como Deus tem falado? Através de quem? As palavras daqueles que se dizem porta vozes de Deus, têm contribuído para a construção do Reino? Têm defendido os valores do Reino? Vêm com humildade? Glorificam a Cristo ou ao porta voz?

Se não estivermos atentos para ouvirmos e discernirmos a voz de Deus, onde ela está ecoando, corremos o risco de ouvir muito barulho, muitas palavras, mas ao fim, em relação à voz de Deus, ser um imenso silêncio.

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