A tensão infinita de ser conhecido

Salmo 139

* Noé Stanley Gonçalves

O salmo 139 é considerado um dos mais lindos poemas sobre a relação com Deus.

Eu já o conhecia devocionalmente desde minhas experiências avivalistas da adolescência, mas sua profundidade teológica me foi revelada num pequeno livro de sermões (como eu chamo as meditações teológicas de The shaking of the foundations) de Paul Tillich, que eu comprei quando estava no Seminário, no Rio, há quase meio século. A meditação sobre o Salmo 139, no livro, é “The escape from God”, e, felizmente, pode ser recuperado na internet, via Google, porque o livro, há muito, está esgotado.

Eu o escolhi como tema da meditação no Congresso Nacional do CPPC porque no texto de Tillich, pela primeira vez, eu vi a comparação entre a resistência a ser conhecido por Deus com aquela que é familiar na experiência terapêutica ou pastoral. E, mais chocante ainda, a descrição da onipotência religiosa como uma forma sofisticada de tentar fugir de Deus.

Para nossa meditação hoje eu o escolhi por causa da recomendação joanina: “se andarmos na luz, como também ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros e o sangue de Jesus, seu Filho, purifica-nos de todo o pecado” (1 Jo 1:7). Somos um grupo de intimidade? Creio que nestes anos todos não me dei a conhecer intimamente. Como já disse em outras ocasiões, nosso respeito à privacidade individual muitas vezes pode ser confundida com indiferença.

Leiamo-lo. [Salmo 139]

Deixe-me dizer primeiro, que não considero este salmo um exercício de piedade. Ele é um poema existencial. Se posso, rudemente, comparar poesia e ficção, lembremo-nos que é corrente entre os ficcionistas reconhecer que toda ficção é autobiográfica e toda autobiografia tem sua quota de ficção: é a arte do “traduzir-se”, de que falava poeticamente Ferreira Gullar. Mas, antes de mergulharmos no salmo 139, recordo a lição do israelense Amós Oz, no seu monumental De amor e trevas: há dois tipos de leitura – do texto para trás (para saber o que de fato aconteceu com o autor que o levou a escrever aquilo) e a leitura do texto para a frente (ver o que acontece comigo, o leitor, quando leio o texto). Dito isso, vamos ao nosso salmo.

Podemos observar que seus quatro “movimentos” apresentam dois pares de atitude e um clímax, que, de alguma forma remete ao início. Pode-se comparar o Salmo com um caminho circular, uma síntese dialética, a dinâmica instituínte/instituído e até um conflito bipolar.

O 1º movimento (versos 1 a 6) nos lembra que sentir-se totalmente conhecido e compreendido surpreende e encanta;

o 2º movimento (versos 7-12) mostra que ser totalmente conhecido incomoda e a ambivalência nos leva a tentar fugir;

o 3º movimento (versos 13-18) é uma primeira síntese: o conhecimento me revela que minha vida tem princípio e finalidade;

o movimento (versos 19-22) são uma nova tentativa de fuga pela identificação com o Outro e a projeção nos outros.

E a bela oração dos versos 23 e 24 são uma nova síntese, que traduz o desejo de ser conhecido.

1º movimento

Os versos 1 a 6 expressam o sentimento de ser tocado pela maravilhosa graça de ser conhecido e reconhecido por alguém que se importa comigo. Minha formação e experiência pietista, me ensinam que, se não houvesse nenhum gozo em ser conhecido, nem necessidade de ter sua identidade validada pelos olhos do Outro, ninguém procuraria ajuda terapêutica ou pastoral.

Francesco Alberoni, [em Enamoramento e amor] refere-se ao enamoramento como “uma revolução a dois”. Seja na conversão religiosa, numa epifania ou num alumbramento que torna plenos de sentido o momento presente e a vida toda, a experiência mística do Encontro (mesmo no fato mais corriqueiro da vida pessoal e social) nos confere valor: alguém se importa conosco a ponto de nos conhecer e desejar que nós nos conheçamos.

Esse acolhimento e legitimação de nossa pessoa é experiência que cada um de nós conhece em diferentes graus e modos, tanto individual e coletivamente. Somos sujeitos e testemunhas dessa visitação do “Oriente do alto”, seja durante o experiência do sagrado ou como relato nele. Assim como se pode apenas experimentar “a paz que excede a todo o entendimento”, mas não se pode explicá-la, não há palavras para traduzir o encantamento que nos traz a surpreendente graça.

Essa experiência avassaladora com o sagrado (que Rudolf Otto chama de “numinoso”), que pode nos vir no trivial e fora de qualquer contexto religioso, não pode ser traduzida em termos teológicos ou doutrinários de “onisciência” e “onipotência”, que seriam meras tentativas de reduzir a imagem de Deus a uma proposição teológica a ser discutida, aceita ou rejeitada. E isso, como bem pontua Tillich, é o caminho mais fácil para o ateísmo.

Porém, mais perigoso é o ateísmo prático com que todos nós tentamos fugir do Encontro com aquele que nos conhece e nos revela quem somos. O professor Kenneth Wolfe nos ensinou singelamente numa meditação no Seminário que a intimidade é a prova dos nove de qualquer relacionamento. Assim, aquela experiência que nos fez ver a vida e a nós mesmos com novos olhos (ou nova percepção), quando passa do enamoramento/revolução para o amor/cotidiano pode nos incomodar profundamente.

Como Rubem Alves diz, “queremos uma auto-imagem favorável”. Ou, no dizer escrachado de uma comadre: “Cada dia eu gosto mais de Deus… Mas, também, ele parece tanto comigo…”

Assim, quando o espelho inescapável, que nos revelava sermos “imagem e semelhança de Deus”, leva-nos a perceber toda a nossa humanidade e incompletude e nos recorda: o caminho mais cômodo é nos refugiarmos em imagens confortáveis de um deus feito à nossa semelhança: o melhor do ser humano, a ordem natural, o curso da história, um rei de quem sou filho, etc. De um deus que nos serve tão bem, porque legitima nossas preferências e condutas, além de nos ajudar a alcançarmos nossos objetivos (legítimos ou não) ninguém precisa fugir.

Mas há um contraponto às formas de domesticação da imagem de Deus, que servem de álibi para nossas tentativas de fugir da Testemunha Inescapável. São as utilizações desta imagem em formas de controle social de comportamento como “o olho que tudo vê” do Grande Irmão que nos vigia do alto do “quadro dos dois caminhos” da tradição puritana [eu tinha um no meu quarto de adolescente, na casa pastoral, já imaginaram?] ou daquele que vê tudo o que se faz dentro do banheiro, na “Para noia” do Raulzito. Esses espantalhos teológicos são tomados como a imagem de Deus, de que os ateus fogem com sucesso.

O salmista reconhece que o conhecimento que Deus tem dele é tão elevado que ultrapassa qualquer compreensão, por mais que ele medite sobre ele. Nós também experimentamos que esse conhecimento legitima a nossa existência, mas descobrimos assustados que nosso mistério é manifesto [onisciência] e nossa privacidade é pública [onipresença]. Atos falhos, lapsos e sonhos nos dizem de modo diferente do planejado racionalmente.

Foi isso que Caim descobriu antes de empreender sua fuga rumo à civilização (como diria Jacques Ellul). O que ele parece não ter percebido é que a busca da verdade última sobre suas ações e seus sentimentos que o encontro com o Deus Vivo lhe permitia era a possibilidade de mudança que lhe era oferecida. (Vejam A leste do Éden, de Steinbeck). Por isso Caim é tema de Herman Hesse a José Saramago…

segundo movimento

Assim, não nos espanta que o segundo movimento do salmo (versos 7 a 12) seja o exame de possibilidades para fugir de Deus. E não me parece que sejam perguntas retóricas, com finalidades simplesmente poéticas ou piedosas. São caminhos angustiantes que nós mesmos já tentamos trilhar.

Tillich me encantou com sua leitura do 1º caminho de fuga: subir aos céus. Não seria um contrassenso fugir de Deus indo para onde se suponha que ele esteja? (Embora a muitos pareça que o melhor lugar para fugir de Deus seja a igreja!!!) Mas Tillich argumenta; não é isso que fazem todos os idealistas de todos os tempos: buscar o paraíso da perfeição humana, da justiça e da paz, onde Deus não é desejado, que esteja fora do julgamento divino? É a utopia, o lugar nenhum da ilusão idealista. Nilton Bonder [em A alma imoral] vai mais longe: “é construir o Éden fora do Éden, sem possibilidade de transgressão”. Contudo, para que isso não sirva de arma aos cínicos relativistas ou reacionários, devo argumentar que eles não falam da utopia como “meta” ou desejo do bom, belo e justo, mas como medida de todas as coisas, acima de qualquer juízo crítico. Quem passou por 68 sabe a diferença…

O salmista procura outra saída para fugir de Deus, que não é estranha a nenhuma pessoa e para alguns é uma tentação diária: a morte. Quem, em algum momento não desejou aliviar-se do peso da existência e, assim, escapar não só de circunstâncias adversas insuportáveis, mas do significado (ou falta de significado) da vida? Veja-se por exemplo a obra do ficcionista pernambucano Raimundo Carrero, Sombrias ruínas da alma, especialmente a narrativa baseada em Thomas Hardy. Mas o salmista descobre que nem na morte se pode fugir de Deus, porque nós não podemos fugir do sentido último da vida.

Se tomo as asas da alvorada… confins dos mares” o teólogo da cultura associa à civilização tecnológica do planejamento e da ação, que é uma resposta sócio-histórica do desenvolvimento humano, mas não é capaz de ajudá-lo a ultrapassar os limites de criatura e sua finitude. Portanto, inútil como meio de fuga eficaz.

E a última estrada da fuga, as trevas, pode-se associar ao inconsciente. Rubem Alves [O sapo que queria ser príncipe] chama-o “tanga de folhas” com que tentamos ocultar nossa nudez, mas apenas a tornamos mais evidente. Por isso ele pretende que a Psicanálise seja “a arte da escuta cega”. O salmista apenas diz que não é eficaz fugir para o esquecimento e a negação.

[Nem vamos entrar na forma mais radical de negação, que é “matar Deus” ou torná-lo réu.] Remeto os interessados ao comentário de Tillich sobre Nietzsche, no sermão e a Roudinesco, que conta sobre os prisioneiros judeus de Auschwitz que resolveram processar deus por ter permitido o horror. Ele foi julgado e condenado à morte. Em seguida, o rabino os convidou a ler a Torah! (Retorno à questão judaica).

Tillich diz que as tentativas de fuga do Deus que tudo conhece são tão inerentes à verdadeira fé, que “quem nunca tentou fugir de Deus, nunca experimentou o Deus que é Deus”. O ateísmo teórico ou prático são relações com um simulacro de Deus.

terceiro movimento

O terceiro movimento é afirmativo. Se ao encanto de ser conhecido, segue-se a ambivalência que leva a tentar fugir de Deus, há uma tentativa de síntese pela gratidão por este conhecimento, de modo que a sabedoria divina supera o horror de sua presença.

O salmista destaca dois aspectos: o fundamento criativo do seu ser e o destino criativo de sua vida. Assim ele afirma o sentido último da vida do indivíduo e do grupo e pode aceitar o mistério infinito da vida, que enfrentamos no espelho que tudo reflete e nos deixamos ver pela testemunha que nunca dorme. O Outro Absoluto que me vê e me conhece, me permite me conhecer.

Um dos meus salmos preferidos, o 103, diz [v.14]: “Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó”. Quando estou muito infeliz e insatisfeito comigo mesmo, procuro me reapropriar do fato de que Deus me conhece como sou, por isso não preciso fingir que sou outra pessoa. Seu amor por mim não vem de minha aparência, mas dele mesmo, de quem ele é. Embora não seja nada lisonjeiro (uma ferida narcísica ao reconhecimento) é uma resposta altamente asseguradora (nos termos das necessidades de Maslow).

Quarto movimento. Quando tudo parecia pacificado, lá vem o salmista (e lá vamos nós) com um “salto triplo carpado hermenêutico”: onde havia louvor surge a raiva e maldição; onde havia temor e tremor aparece ira aos homens. A irrupção deste elemento escuro (a inimizade contra Deus, a iniqüidade, os atos sangrentos) “deve perturbar quem pensa que os problemas da vida se resolvem por meio de meditação ou elevação religiosa”, nos adverte Tillich.

O salmista se sente igual a Deus de quem ele queria fugir. Ele se esquece de que acabara de constatar a distância infinita entre seus pensamentos e os pensamentos de Deus. Ao nos colocarmos ao lado de Deus, identificando-nos com o Santo, podemos simplesmente estar tentando negar que somos pó, que nutrimos ódio a Deus porque ele questiona a veracidade não só de nossas ações, mas de nossas motivações. Ao projetarmos nos outros nossa violência, nossa inveja e nossa perversidade, nós nos declaramos diferentes dos outros e rompemos a solidariedade humana. Enquanto eu não experimentar que quem pregou os pregos em Jesus Cristo fui eu e não os judeus ou os romanos, não há possibilidade de cura para mim e eu não me compadecerei dos outros que também o fazem. Daí nasce o pecado da religião: o fanatismo, a arrogância das igrejas, a crueldade dos moralistas, a rigidez dos ortodoxos, que contradiz a proibição de odiar nossos inimigos como se fossem inimigos de Deus. Isso leva a uma prática do poder institucional que tenta enquadrar qualquer desvio do indivíduo ou de um grupo às práticas consagradas (e, muitas vezes, estereotipadas e enrijecidas). Daí só serem aceitos “testemunhos” que confirmem o já sabido. Não há lugar para a autenticidade, a originalidade ou o simples questionamento.

Clímax. De repente, a estrofe é quebrada, como se houvesse uma pausa. O salmista ouve o que está dizendo e percebe claramente que há uma coisa errada. Ele não sabe o que é, mas Deus sabe. Por isso ele pede a Deus que faça aquilo que, no começo do salmo, ele reconhece que Deus faz implacavelmente: “Sonda-me, ó Deus e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se eu enveredo pelo caminho perigoso e conduze-me pelo caminho duradouro.”

Finalmente, ele reconhece que ser conhecido, que é a ameaça radical de sua existência, é o sentido último de sua vida, nas palavras de Tillich. ASSIM, A TENSÃO INFINITA É O AMBIENTE EM QUE VIVE A VERDADEIRA FÉ.

Ela ecoa em outros salmos: “Quem se dá conta dos próprios erros? Apaga minhas faltas ocultas.” (Sl 19:12) “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito inabalável.”(Sl 51:10)

A infinita tensão é retratada de modo exemplar por Nosso Mestre. Jesus Cristo tem consciência do propósito de sua vida, pois está unido ao Pai; mas ele sabe o quanto isso lhe custará e ele exclama: “Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu: Pai, salva-me desta hora? Mas, precisamente com este propósito vim para esta hora.” (Jo 12:27) Assim, no Getsêmane ele enfrenta a luta entre escapar da morte ou cumprir o significado de sua vida e missão – para ser na cruz o símbolo mais perfeito da condição humana e a manifestação do amor total de Deus que tudo conhece sobre nós, nos perdoa e nos redime.

Conclusão A Bíblia é um livro de encontros, mas também de fugas: Jacó foge de casa, mas Deus está em seu caminho; foge do irmão, mas tem enfrentar o anjo no vau do Jaboque para construir sua identidade. Elias foge até o Monte Horebe para salvar a vida e recobra o sentido de sua missão. Jonas é o fujão mais conhecido, que tem de admitir as causas de seus conflitos. Pedro tenta fugir de sua culpa e frustração indo pescar com seus condiscípulos, mas apenas está indo ao encontro do Cristo Vivo, que lhe restaura a vida.

A comunhão fraternal é um lugar de poder, mas deve ser, acima de tudo, um espaço para a graça. A infinita tensão de ser conhecido traz implícito o medo do reconhecimento dos limites, das culpas e das inadequações. Só quando vislumbramos que a confissão cria comunhão, como Tiago nos diz (Tg 5:17) é que experimentamos seu poder terapêutico – a cura.

Que Deus nos abençoe a viver profundamente a relação com o Deus Vivo, de modo a suportar a infinita tensão de sermos conhecidos, aceitando nossos encontros e nossas tentativas de fuga com autenticidade, para assim respeitarmos os encontros e fugas daqueles que vêm a nós em busca de ajuda, na certeza de que cada encruzilhada é uma oportunidade para a maravilhosa graça de Deus. Que assim possamos suportar nossos próprios fardos e levar as cargas uns dos outros.

*Noé Stanley Gonçalves é Pastor Emérito da ICB

(Sermão pregado no 22º aniversário ICB em 02/10/2011)

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