Como ouvir a voz de Deus

José Augusto Pedra

Nós aprendemos pela tradição religiosa cristã ocidental que orar é falar com Deus. Mas acabamos não usufruindo de outras possibilidades que a oração nos oferece. Quase sempre o aspecto catártico é o privilegiado, em que desabafamos, pedimos, intercedemos, suplicamos e esperamos pelas respostas de Deus, que na maioria das vezes são respondidas, pois Ele sempre responde às orações que lhe fazemos, em o nome de Jesus. Por mais que tenhamos o que expressar diante do Senhor, mais importante é o que Ele quer nos comunicar. Afinal, como ouvir a voz de Deus ao coração sem que paremos e nos aquietemos para ouvi-lo?

Porém, existe outro aspecto que pode ser desfrutado no momento da oração. É a escuta silenciosa, menos praticada por uma geração tão ocupada, agitada e inquieta, ávida por informações e novos atrativos, que privilegia mais o mundo extrapsíquico do que o intrapsíquico. Procuramos saber tudo sobre o mundo externo, mas pouco sobre o interno, sobre nosso próprio íntimo. Queremos ouvir a voz de Deus nos falar e Ele realmente é Deus que fala. Mas como ouvi-lo falar se não conseguimos ouvir o nosso próprio coração, nossas próprias inquietações e mobilizações interiores?

O já falecido Bispo W. Robert MacAlister (de saudosa memória), fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida, escreveu o livro “O Encontro Real”, no qual propôs que o encontro com Deus só se realiza se formos a um Deus real e levarmos uma pessoa real, pois dois fantasmas não se encontram. Afirmou ser preciso saber quem é Deus, segundo as Escrituras e saber quem somos em essência. Propunha o autoconhecimento, a escuta do próprio coração na presença de Deus.

A literatura Patrística, dos primeiros teólogos, chamados “Pais da Igreja”, muito privilegia a oração silenciosa, a meditação e a escuta silenciosa. Os primeiros cristãos, judeus, praticavam as vigílias de oração e tudo paravam, periodicamente, para estarem com Deus. Praticavam a meditação na palavra de Deus, que sabiam de cor. Aquietavam-se na presença de Deus, em reverência e contrição.

Quando oramos provocamos o relaxamento mental, com alteração do ritmo cerebral, do padrão de amplitude das ondas elétricas no cérebro. No mesmo ato treinamos a concentração e a capacidade de abstração. Por isso a sensação percebida é tão agradável quando praticada, pois favorece o insigth e a criatividade. Tem sido comprovado em estudos realizados que a prática da oração favorece o tratamento de várias doenças graves, como o câncer, por exemplo. Foi verificado que os praticantes da oração obtinham melhores resultados de sobrevida do que aqueles que não a praticavam, sem levar em conta o fato que o Senhor Deus pode curar de qualquer doença.

O Senhor Jesus quando escolheu os doze apóstolos, chamou-os para junto de si para estarem com Ele e diz o texto que “vieram para junto dele. Então designou doze para estarem com ele…” (Marcos 3:13-14). A comunhão com Jesus era privilegiada na formação daqueles primeiros apóstolos. O próprio Jesus periodicamente buscava a comunhão com o Pai Celestial em oração. Ouvi-lo proferir seus ensinamentos, meditar no que ouviam antecedia o engajamento com a missão, para a qual foram posteriormente comissionados.

Para promover a escuta silenciosa, o ideal é parar por um tempo. Aquietar-se na presença de Deus, com atitude de quem se dispõe a ouvi-lo. Procure sentar-se confortavelmente, ou fique em posição que lhe permita permanecer imóvel por mais tempo. Fixe o pensamento em Deus, ou em algum aspecto de sua palavra, ou de Sua pessoa, que mais o impressione. Deixe os demais pensamentos passarem sem se apegar a nenhum deles.

Uma boa estratégia é focar apenas em sua respiração. Procure respirar profundamente, esvaziar e encher os pulmões de ar totalmente, de maneira bem suave. Mantenha a mente focada em querer desfrutar da presença dele, nada mais do que isso. No início parece meio estranho, mas com pouco de persistência verá os resultados. Que você possa usufruir de excelentes momentos de comunhão com o Senhor! Amém!

Sobre Rev. Augusto Pedra

Teólogo. Psicólogo. Psicoterapeuta. Pastor Evangélico e Vice-presidente da ICB(*) – Igreja Cristã de Brasília. Especialista em Psicanálise e Inteligência Multifocal na Reconstrução da Educação. Especialista em Teologia da Missão Urbana.