O Arrependimento de Deus

Por Prof. Filipe Dunaway

I. A Introdução1

O arrependimento de Deus é um dos mais negligenciados temas na história dos estudos bíblicos. Pouco tem sido escrito sobre este tópico. Entretanto, este é um conceito chave, sem o qual não se pode compreender precisamente a linguagem veterotestamentária sobre Deus. A negligencia deste tema é aparentemente devida a vários fatores: (1) a palavra “arrependimento” sugere a muitas pessoas que Deus, que por definição é moralmente perfeito, fez algo errado; (2) ela também implica em que Deus, que, se alega, é absolutamente imutável, mude de alguma maneira; e (3) esta noção entra diretamente em choque com uma das fontes principais do teísmo clássico, a saber, o pensamento dos antigos gregos (especialmente Aristóteles) sobre Deus e o mundo. De qualquer forma, parece que somente agora a igreja cristã está começando a desenvolver a capacidade e perícia teológica necessárias para compreender e utilizar a concepção bíblica de um Deus que se arrepende.

 

II. A Terminologia e Definição

Há duas palavras hebraicas no Antigo Testamento que são traduzidas por nosso termo “arrependimento”. Uma delas é empregada principalmente para se falar do arrependimento humano do pecado, mas, de vez em quando, ela se refere ao arrependimento divino. Esta palavra é shuv, que quer dizer, ao pé da letra, “voltar” ou “virar para trás.” A segunda palavra, que é o termo principal para denotar o arrependimento de Deus, é nicham, que significa “sentir pesar” acerca de algo. Ela pode também ser traduzida: “sentir remorso,” “ter compaixão,” “revogar,” “arrepender-se,” ou “mudar de opinião.”

Os estudiosos Hans Walter Wolff e Terence Freiem dizem que o sentido básico destes dois termos é duplo: (1) eles assinalam uma mudança completa de uma direção já tomada ou de uma decisão já feita, e (2) eles apontam para uma mudança numa pessoa que é comovida pela nova situação social em que ela se encontra. Consequentemente podemos concluir que, shuv e nicham se referem a uma reviravolta no comportamento de uma pessoa, a qual é instigada por sua reação emocional a uma nova situação.

Repudiamos a prática de descartar tais palavras ou metáforas bíblicas como sendo meramente antropomorfismos que não precisam ser utilizadas em nossas teologias de hoje. Pelo contrário, argumentamos que devemos tomá-las bem seriamente como termos que descrevem algo real e importante sobre Deus. Com certeza, o termo “arrependimento” e outros semelhantes não deveriam ser interpretados como se eles tivessem exatamente o mesmo sentido quando usados sobre Deus que eles têm quando usados com respeito ao homem. Por exemplo, o fato de que o arrependimento humano na Bíblia indica que o homem pecador está mudando sua vida, voltando a Deus, não significa que as afirmações sobre o arrependimento divino estão atribuindo pecado a Deus. Entretanto, ao interpretarmos metáforas como esta, é mister preservarmos sua direção fundamental. Aqui isto quer dizer que Deus, embora Ele nunca peque (Num 23:19; 1 Sm 15:29), às vezes, à luz da nova situação que acaba de surgir, muda de opinião com respeito a Suas delcarações ou ações passadas (Os 11:8-9).

Vamos considerar agora um texto do livro de Jeremias em que Iahweh, o Deus de Israel, se dirige ao profeta assim:

7Se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação, e acerca dum reino, para arrancar, para derribar e para destruir, 8e se aquela nação, contra a qual falar, se converter da sua maldade, também eu me arrependerei do mal que intentava fazer-lhe. 9E se em qualquer tempo eu falar acerca duma nação e acerca dum reino, para edificar e para plantar, 10se ela fizer o mal diante dos meus olhos, não dando ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que lhe intentava fazer. (Jer 18:7-10)

Este texto é muito instrutivo. Observe em primeiro lugar que Deus está apresentado aqui usando duas vezes, na primeira pessoa do singular, o verbo “arrepender-se”: “eu me arrependerei.” Segundo, neste texto Deus usa duas sentenças condicionais, as quais se referem às ações possíveis tanto por parte de Deus quanto por parte de seres humanos. Deus está dizendo que, em certas situações, Ele alterará seu modo de procedimento e o que determinará esta mudança é o comportamento de uma nação humana. Em outras palavras, depois de anunciar sua intenção de julgar (vs 8) ou de abençoar (vs 10) uma nação, Deus ficará observando seu comportamento e, caso haja uma mudança significativa neste comportamento, Ele modificará sua própria decisão prévia sobre o que iria fazer a esta nação. Tudo isso sugere que Deus não somente conhece o que seres humanos fazem, Ele também é movido pelos atos humanos a alterar Suas intenções e ações concernentes a estes homens. Em outras palavras, Deus é sensível, afetado, influenciado e comovido por aquilo que as pessoas fazem.

É notável que o arrependimento seja uma idéia que assume a realidade do tempo, pois aquele que se arrepende está se modificando a si mesmo de um momento para outro. Outrora ele teve certas características ou atitudes, mas agora não as tem mais. Portanto, as afirmações bíblicas sobre o arrependimento divino implicam em que o tempo seja, de alguma forma, real na vida de Deus e que Ele realmente participe, junto conosco, do processo histórico-temporal. Na realidade, o conceito do arrependimento de Deus é um só de um grupo grande de conceitos empregados no Antigo Testamento para falar sobre Deus, todas das quais pressupõem que o tempo é real para Ele. Este grupo de conceitos inclui as idéias de que Deus tem planos; Deus faz promessas; Deus convive com seu povo num pacto; Deus se revela na história de Israel; Deus é receptivo às orações das pessoas.

 

III. A Importância do “Arrependimento Divino”

no Antigo Testamento

Para demonstrar quão importante este conceito é nos escritos que compõem nosso Antigo Testamento, Fretheim apresenta os seguintes resultados de suas pesquisas:

a. A frequência da idéia do arrependimento de Deus: O termo hebraico principal (nicham) é utilizado para expressar esta doutrina quase 40 vezes no Antigo Testamento.

b. Sua representação em muitas tradições teológicas do Antigo Testamento: O conceito do arrependimento divino se encontra nas tradições do sul (Judá) e do norte (Israel), na tradição javista e na elohista do Pentateuco, na tradição sobre Davi e Sião, na história Deuteronomista, nos salmos e nos profetas (desde o século xiii até a época pós-exílica).

c. Sua presença em muitos tipos de literatura: Nos hinos Deus é louvado porque se arrepende (Sl 106:45). Nos oráculos proféticos, o ensino de que Deus muda de opinião ou atitude é frequentemente achado no discurso direto divino, assim mostrando que é considerado um aspecto do auto-entendimento de Deus (Jer 26:3; 18:7-10, citado acima). Finalmente, nos credos ou confissões de fé no AT, o arrependimento de Deus é considerado tão característico de Deus como Sua misericórdia, graça e benignidade (Joel 2:13; Jonas 4:2); portanto, ele assim se torna um dos padrões para avaliar toda fala sobre Deus entre os antigos israelitas.

 

IV. A Relevância Teológica do “Arrependimento de Deus”

Podemos resumir nossa reflexão teológica acerca deste ensino do AT com cinco teses:

 

1. Criaturas Livres e Passividade Divina. Os textos que expressam este conceito, como Jer 18:7-10 citado acima, pressupõem que as criaturas são parcialmente autodeterminantes e, consequentemente, podem, mediante suas decisões e atos, afetar a maneira pela qual Deus reage a elas. Isto, por sua vez, implica em que Deus seja em parte passivo ou sensível, capaz de ser influenciado e comovido por estes atos criaturais. Então, Deus não somente age nas criaturas, Ele também recebe algo delas. E as criaturas não apenas recebem de Deus, mas também agem de tal forma que afetam a atitude divina. Com certeza, esta não é uma relação entre iguais, mas é realmente uma relação recíproca que afeta tanto Deus quanto a criatura. [Há outros conceitos no AT que mostram que o Deus de Israel é passivo ou afetado pelas criaturas: Deus é provocado a ter raiva, se regozija sobre sua criação, se entristece por causa da rebelião de seu povo, sofre devido à miséria de seus filhos e responde às suas súplicas. Talvez o melhor exemplo desta passividade divina se encontra em Oséias 11, especialmente nos versos 8-9.]

 

2. O Futuro Aberto. A noção de que Deus se arrepende pressupõe que o futuro não está predeterminado em todos os seus detalhes mas, pelo contrário, está aberto e indefinido. Deus toma a iniciativa, se aproximando dos seres humanos, e em seguida aguarda a reação livre deles. Dependendo daquilo que os homens fazem, Deus, por sua vez, reage a eles e assim o processo histórico vai se desdobrando por meio desta interação entre Deus e as criaturas. Portanto, o futuro é o grande campo da verdadeira ação recíproca entre Deus e as criaturas; ele não é concreto ou definido agora, mas o será feito por meio das decisões tanto das criaturas quanto de Deus. Mesmo que as criaturas sejam claramente sujeitas a Ele, elas realmente determinam alguns dos pormenores de cada novo momento na história e assim participam com Deus na construção de cada nova fase da realidade histórica.

 

3. A Fidelidade Flexível de Deus. O conceito do arrependimento de Deus expressa a determinação, constância e fidelidade d’Ele na execução do Seu plano salvífico em qualquer situação que surja. Antes de mais nada, Deus quer salvar Israel e fará tudo que puder para alcançar este fim, mesmo voltar-se para trás e repudiar alguns de Seus decretos. Porque Deus visa à salvação de Israel, Ele espera que Seu anúncio de julgamento não tenha que ser cumprido. Na sua fidelidade à aliança, Deus prefere que Israel se arrependa de seu pecado, de tal modo que Ele não tenha que cumprir suas ameaças de juízo. Deus não é morto e estático, mas vivo e flexível. Por isso, a fim de permanecer fiel ao Seu propósito inalterável de manter Sua aliança de graça com Israel, Deus espera que possa voltar-se para trás revogando Seu decreto de condenação devido à mudança na vida de Seu povo (cf. Joel 2:12-17). [Não é difícil compreender esta posição teológica. Pense num pai que, antes de mais nada, quer o que é bom para seu filho amado. Mas, às vezes, o pai tem que disciplinar o filho rebelde, mesmo fazendo ameaças ou, pelo menos, advertências. Contudo, se o filho melhora radicalmente seu comportamento, que pai responderia castigando-o de acordo com suas advertências prévias? Pelo contrário, o pai mudaria seu plano “provisório” de castigar, porque agora contrariaria frontalmente seu desejo básico de fazer o melhor possível para seu filho. Nas relações mais íntimas entre pessoas, flexibilidade apropriada à situação é valiosíssima.]

 

4. O Deus Mutável-Imutável: O Teísmo Bipolar. Esta doutrina bíblica sobre o arrependimento divino aponta a necessidade de afirmarmos tanto a mutabilidade divina quanto a Sua imutabilidade (cf. Mal 3:6-7, que coloca as duas idéias lado ao lado). Sem dúvida alguma, Deus é imutável ou impassível em alguns aspectos: Ele jamais muda na Sua essência, caráter moral ou nos Seus propósitos fundamentais. No entanto, Deus é, ao mesmo tempo, mutável em outros aspectos: Na Sua relação com o mundo mutável que Ele conhece e ama, Deus é comovido por nosso sofrimento, influenciado por nossos atos, entristecido por nosso pecado, agradado por nossas alegrias e obediências. Em outras palavras, em cada nova situação que apareça, Deus é livre de expressar, das mais diversas maneiras, Seu caráter e propósitos inabaláveis.

 

5. A Concepção Social da Perfeição. Finalmente, o conceito bíblico do arrependimento divino exige de nós uma nova concepção de perfeição. No mundo ocidental, a concepção dominante da perfeição se deriva dos antigos gregos. Eles tiveram um preconceito muito forte contra qualquer tipo de mudança, que era considerada como sendo inferior à permanência. Então, para os gregos, o perfeito era o imutável ou impassível e, por isso, não é por acaso que Aristóteles concebeu Deus como sendo impassivelmente desvinculado do fluxo do mundo. Todavia, há evidência de que, para os antigos hebreus, o que é absolutamente impassível não é identificado com o divino mas, pelo contrário, é considerado como sendo um deus falso (veja Sl 115:5-7; Jer 10:4-5). No lugar de tal Deus totalmente transcendente, sem qualquer relação interna2 com o mundo, os israelitas tinham sua concepção de Iahweh, o Deus que ouviu seus gemidos, pessoalmente tomou conhecimento de sua situação e os libertou da opressão (Êx 2:23-25; 6:2-8). Consequentemente, se definirmos a perfeição divina de acordo com a mentalidade hebraica, devemos empregar concepções pessoais e socais. Então, um ser perfeito não seria morto, inativo ou desligado dos outros, mas, sim, ele seria vivo, atuante e intimamente social ou relacionado com os outros. Que Deus é perfeito deveria significar para nós que apenas Ele pode interagir igualmente com todos os seres existentes, guiando todos e sendo aberto à influência de todos (como no caso dos israelitas). O único Ser Perfeito não é um eremita celestial que se isola dos outros; antes, Ele é o ser imanentemente social que se relaciona especificamente com todos os seres que existem. Caso contrário, Ele não poderia servir como modelo por nós, que, em nossa religião baseada na Bíblia, temos muitas obrigações sociais ou interpessoais.

1Esta apostila está fundamentada principalmente nas pesquisas do professor de Antigo Testamento Terence E. Fretheim, “The Repentance of God: A Key to Evaluating Old Testament God-Talk,” Horizons in Biblical Theology, Vol. 10 (June 1988): 47-70. Contudo, ela deve muito também, mas mais indiretamente, aos escritos dos filósofos Charles Hartshorne e Alfred North Whitehead e do teólogo Karl Barth.

2Uma pessoa tem uma “relação interna” com outra quando ela é afetada por esta relação. Por exemplo, visto que eu vejo o presidente do Brasil na televisão, leio sobe ele, etc., estou influenciado por ele e, por isso, posso dizer que tenho um relação “interna” para com ele. Contudo, porque ele não me conhece nem me vê na televisão, ele não é afetado por mim e, consequentemente, não tem relação interna comigo; antes, do ponto de vista dele esta relação é puramente “externa.” [Para os antigos hebreus, Iahweh claramente teve relações internas com eles!]

 

Nilson Pereira de Moura

Sobre Nilson Pereira de Moura

Nilson Pereira de Moura nasceu em 1957 na cidade de Posse-GO. É casado há 25 anos e pai de três filhos. É bacharel em Teologia, com concentração em Ministério Pastoral, pela Faculdade Teológica Batista de Brasília – FTBB (1999). Ordenado ao Ministério Pastoral pela Igreja Cristã de Brasília, em 09 de dezembro de 2001, em Concílio presidido pelo Pastor Júlio Borges de Macedo Filho. Foi posteriormente aprovado em Concílio Especial de reconhecimento de exame realizado pela ICB pela Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, em 22 de setembro de 2009. Pastoreou como membro do Colegiado de Pastores na Igreja Batista do Jardim Paquetá, na cidade de Planaltina de Goiás, no período de março de 2008 até 13 de novembro de 2010, período que julga de extrema relevância para o seu Ministério Pastoral. Após essa experiência gratificante retornou à Primeira Igreja Batista de Sobradinho-DF (PIBS), onde ocorreu sua conversão em dezembro de 1980 e batismo em 23 de agosto de 1981. Permaneceu como pastor membro na PIBS de 14 de novembro de 2010 até 19 de julho de 2011, quando resolveu retornar à equipe pastoral da Igreja Cristã de Brasília em 24 de julho de 2011, onde foi recebido com grande alegria e unanimidade. É muito grato a Deus pela experiência adquirida na caminhada cristã. Em 18 de agosto de 2013 foi recebido como membro efetivo na Primeira Igreja Batista de Sobradinho – PIBS/DF. No dia 30 de novembro de 2014 retornou à Equipe Pastoral da ICB de copastor. Em 19 de abril de 2015 por aclamação, retornou a PIBS, na qualidade de membro efetivo. Servidor público federal, aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, onde ingressou em 03 de janeiro de 1979. Atuou na Área de Gestão de Pessoas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda-SPE/MF, e na Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento – SPU/MP, no assessoramento técnico da ASTEC, em gestão de Pessoas. Posteriormente, exerceu a função de parecerista na Secretaria de Recursos Humanos – SRH/MP, tendo encerrado a sua participação no MPR na Subsecretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão, onde exerceu os cargos de Assistente, Assessor Técnico e Chefe de Divisão por vários anos. Encerrou sua carreira no IPEA ocupando a atribuição de Auditor substituto, na Auditoria Interna do órgão. Em paralelo, exerceu o cargo de Diretor de Administração e Finanças da Associação dos Funcionários do IPEA-AFIPEA, cargo pelo qual foi eleito para o Biênio 2011/12, acumulando também o cargo de Secretário-Executivo da AFIPEA-SINDICAL. Cargos exercidos até 30 de maio de 2013.