O Grande Relacionamento

O GRANDE RELACIONAMENTO

(Marcos 12.28-34)

Por Nilson Pereira de Moura, Bacharel em Teologia e Pastor da Igreja Cristã de Brasília

 

O que de fato Jesus quis ensinar aos mestres citando a lei mosaica que se encontra na Torá? O livro de Deuteronômio 6.4-6 traz a Shemá israelita que diz: “Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças. Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração” e em Levítico 19.18 é ordenado: “Não procurem vingança, nem guardem rancor contra alguém do seu povo, mas ame cada um o seu próximo como a si mesmo. Eu sou o SENHOR”.

A meu ver Jesus não está preocupado com o preceito da lei, mas com a sua essência. Ele não revoga a lei, mas a interpreta de forma verdadeira e correta. Ele é cumprimento dela e cumpre o que de fato é essencial na lei. Ele (Jesus) também quer que a entendamos sob outra ótica; a ótica do amor e não mais sob o ponto de vista do legalista da religião.

Então, a primeira coisa que ele ensina é que Deus é único. Jesus começa o texto dizendo “o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor”. É necessário aprender a distinguí-lo entre o falso e o verdadeiro. Após fazer essa distinção, é preciso amá-lo de todo coração, de toda alma, de todo entendimento e com todas as forças. Amar a Deus, amar a si mesmo e amar ao próximo implica em um grande relacionamento – em primeiro lugar, relacionar-se com Deus, em segundo lugar, relacionar-se consigo mesmo, e não menos importante, relacionar-se com próximo. O relacionamento no nível em que Jesus está propondo é mais importante do que a mera observância da lei, pois ninguém ama por decreto. Amar a Deus, amar a si mesmo e amar ao próximo é uma escolha que fazemos.

É necessário entender que Jesus privilegia e valoriza o relacionamento com Deus acima do mero cumprimento literal da lei. Relacionar-se com Deus, consigo mesmo e com o próximo é na verdade tudo o que Deus espera de nós. A observância protocolar das regras, apenas por obrigação é uma tarefa pesada, na medida em que resulta num sacrifício inútil e vazio. Criando a sensação nos legalistas de que são merecedores das dádivas de Deus. Ou seja, os seus sacrifícios são vistos como algo meritório. As regras são criadas para servir e nortear o caminho dos seres humanos e não para escravizá-los. Elas devem servir às pessoas e não subjugá-las, condená-las e aprisioná-las. As leis e as regras são criadas por causa das pessoas e não as pessoas por causa delas. Primeiro foi feito o ser humano e depois o sábado é o que está dito em Mc 2.27-28, “O sábado foi feito por causa do homem, e não homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado”. O ser humano é mais importante do que leis e regras humanas, porque Deus é amor. (1ª Jo 4.16b).

O apóstolo Paulo Entendeu isso quando escreve em Romanos 13.8-10 “não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a Lei. Pois estes mandamentos: não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: Ame o teu próximo como a si mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da Lei”.

O Profeta Oséias no capítulo 6:6 diz: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos”. Deus deseja de nós algo bem diferente da exterioridade e da aparência religiosa. Ele deseja um relacionamento para dentro e para fora de nós mesmos. Para dentro de nós mesmo, isto é, amando a si mesmo, valorizando a si mesmo e tendo autoestima; para fora de si mesmo, ou seja, deixando-se conhecer por Deus e escolhendo amá-lo acima de qualquer outra coisa. E também, amando o seu próximo como a si mesmo com seus defeitos e suas virtudes. O relacionamento que tem por base a obrigação, na realidade não é relacionamento verdadeiro, mas sim uma atitude hipócrita.

O capítulo 23 do Evangelho de Mateus traz um belíssimo ensino de Jesus sobre a hipocrisia dos religiosos e mestres da lei. Jesus pedindo aos seus discípulos e a multidão para praticarem o que eles ensinavam, mas não o que eles praticavam. Ele disse: “pois não praticam o que pregam”. Além de ser um ensino escravizador, opressivo e difícil de ser praticado era hipócrita (vv1-4), porque estavam mais preocupados em serem vistos pelos homens, ou seja, com a aparência externa, do que em ser vistos por Deus. É na verdade uma vida de aparência e não uma vida de autêntica e íntima relação com Deus, com consigo mesmo e com o outro. Uma relação que se dá na irmandade pelo amor, pela humildade e pelo serviço mútuo, porque na comunidade do amor todos são filhos do mesmo Pai como o próprio Jesus disse em João 17.20-23 “Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste”. Fora dessa relação tudo é hipocrisia religiosa. A religiosidade cria muitos penduricalhos para encobrir a verdadeira ralação da pessoa com Deus.

Em Mateus 23 Jesus condena a hipocrisia dos fariseus e mestres da Lei. Quero usá-lo agora apenas para exemplificar o que é uma vida mantida pelos penduricalhos da fé e na hipocrisia. (vv. 1-4) Vejamos alguns tópicos. Sei que o texto dá para fazer inúmeros sermões e estudos, no momento vou usá-lo como complemento deste sermão. Vejamos o que como Jesus classifica os mestres da lei e os fariseus.

  1. Os hipócritas gostam de se sentirem importantes (vv5-7):

“Tudo o que fazem é para serem vistos pelos homens. Eles fazem seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes bem longas; gostam do lugar de honra nos banquetes e dos assentos mais importantes nas sinagogas, de serem saudados nas praças e de serem chamados rabis”;

  1. Os hipócritas impedem a entrada das pessoas no Reino de Deus (vv13-15):

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês fecham o Reino dos céus diante dos homens! Vocês mesmo não entram, nem deixam entrar aqueles que gostariam de fazê-lo. Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações. Por isso serão castigados mais severamente”;

  1. Os hipócritas distorcem a verdadeira relação das pessoas com Deus (vv16-22):

“Ai de vocês, guias cegos! pois dizem: Se alguém jurar pelo santuário, isto nada significa; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, está obrigado por seu juramento. Cegos insensatos! Que é mais importante: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? Vocês também dizem: Se alguém jurar pelo altar, isto nada significa; mas se alguém jurar pela oferta que está sobre ele, está obrigado por seu juramento. Cegos! Que é mais importante: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? Portanto, aquele que jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que está sobre ele. E o que jurar pelo santuário, jura por ele e por aquele que nele habita. E aquele que jurar pelos céus, jura pelo trono de Deus e por aquele que nele se assenta”;

  1. Os hipócritas tornam a Lei e a religião mais importante que a justiça, a misericórdia e a fidelidade a Deus (vv23-24):

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas tem negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo”;

  1. Os hipócritas valorizam mais APARÊNCIA do que o SER (vv25-28):

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo. Ai de vocês, mestres da lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”;

  1. Os hipócritas usam a religião para justificar suas mentiras, violências e os assassinatos em nome de Deus (vv29-35):

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês edificam os túmulos dos profetas e adornam os monumentos dos justos. E dizem: Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos antepassados, não teríamos tomado parte com eles no derramamento do sangue dos profetas. Assim, vocês testemunham contra si mesmos que são descendentes dos que assassinaram os profetas. Acabem, pois, de encher a medida do pecado dos seus antepassados! Serpentes! Raça de víboras! Como vocês escaparão da condenação ao inferno? Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e mestres. Uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em cidade. E, assim, sobre vocês recairá todo o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vocês assassinaram entre o santuário e o altar. Eu lhes asseguro que tudo isso sobrevirá a esta geração”;

  1. Os hipócritas não aceitam o amor incondicional de Deus (vv37-39):

“Jerusalém, Jerusalém, (Igreja), você, que mata os profetas e apedreja os que lhes são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. Eis que a casa de vocês ficará deserta. Pois eu lhes digo que vocês não me verão mais, até que digam: Bendito é o que vem em nome do SENHOR”;

  1. Entre os discípulos e a multidão deve haver um novo relacionamento (8-12):

 Não mais sob a orientação dos religiosos hipócritas, mas sob a orientação do Senhor Jesus Cristo como fora ensinado nos versos (8-12):

“Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. Ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só tem um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘mestres’, porquanto vocês têm um só Mestre, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. Pois todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado”.

Em suma. Jesus nos ensina a partir de Mc 12.28-34 que, Amar a Deus é mais importante do que guardar as leis e as regras religiosas. Amar a si mesmo e amar ao próximo com justiça, misericórdia e fidelidade (fé) é o que Deus quer de nós. Portanto, o grande e mais importante mandamento é o relacionamento com Deus, com o próximo e nós mesmos, porque Jesus ensinou e continua ensinando: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. Ame o seu próximo como a si mesmo”. Um relacionamento de amor sem hipocrisia. Esse tipo de relacionamento é mais importante do que as práticas religiosas. Guardar o mandamento por obrigação e não por amor é pura hipocrisia. Em Mateus 9.13b está escrito: “Deus deseja misericórdia e não sacrifício”.

Nilson Pereira de Moura

Sobre Nilson Pereira de Moura

Nilson Pereira de Moura nasceu em 1957 na cidade de Posse-GO. É casado há 25 anos e pai de três filhos. É bacharel em Teologia, com concentração em Ministério Pastoral, pela Faculdade Teológica Batista de Brasília – FTBB (1999). Ordenado ao Ministério Pastoral pela Igreja Cristã de Brasília, em 09 de dezembro de 2001, em Concílio presidido pelo Pastor Júlio Borges de Macedo Filho. Foi posteriormente aprovado em Concílio Especial de reconhecimento de exame realizado pela ICB pela Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, em 22 de setembro de 2009. Pastoreou como membro do Colegiado de Pastores na Igreja Batista do Jardim Paquetá, na cidade de Planaltina de Goiás, no período de março de 2008 até 13 de novembro de 2010, período que julga de extrema relevância para o seu Ministério Pastoral. Após essa experiência gratificante retornou à Primeira Igreja Batista de Sobradinho-DF (PIBS), onde ocorreu sua conversão em dezembro de 1980 e batismo em 23 de agosto de 1981. Permaneceu como pastor membro na PIBS de 14 de novembro de 2010 até 19 de julho de 2011, quando resolveu retornar à equipe pastoral da Igreja Cristã de Brasília em 24 de julho de 2011, onde foi recebido com grande alegria e unanimidade. É muito grato a Deus pela experiência adquirida na caminhada cristã. Em 18 de agosto de 2013 foi recebido como membro efetivo na Primeira Igreja Batista de Sobradinho – PIBS/DF. No dia 30 de novembro de 2014 retornou à Equipe Pastoral da ICB de copastor. Em 19 de abril de 2015 por aclamação, retornou a PIBS, na qualidade de membro efetivo. Servidor público federal, aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, onde ingressou em 03 de janeiro de 1979. Atuou na Área de Gestão de Pessoas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda-SPE/MF, e na Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento – SPU/MP, no assessoramento técnico da ASTEC, em gestão de Pessoas. Posteriormente, exerceu a função de parecerista na Secretaria de Recursos Humanos – SRH/MP, tendo encerrado a sua participação no MPR na Subsecretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão, onde exerceu os cargos de Assistente, Assessor Técnico e Chefe de Divisão por vários anos. Encerrou sua carreira no IPEA ocupando a atribuição de Auditor substituto, na Auditoria Interna do órgão. Em paralelo, exerceu o cargo de Diretor de Administração e Finanças da Associação dos Funcionários do IPEA-AFIPEA, cargo pelo qual foi eleito para o Biênio 2011/12, acumulando também o cargo de Secretário-Executivo da AFIPEA-SINDICAL. Cargos exercidos até 30 de maio de 2013.