PASTOREIA AS MINHAS OVELHAS

Wilson Dias

Texto: Jo.21:1-22

1 – Contextualização

Jesus havia morrido e aparentemente toda a esperança de instauração de um novo reino ou de restauração da glória passada se esvaiu. Jesus morreu, e morreu humilhado, como um bandido comum. Até aqueles mais chegados, os discípulos, não entenderam e se dispersaram. Pedro negou Jesus três vezes, os demais se esconderam ou fugiram. Parece que tudo havia se acabado.

Jesus morre, porém depois de três dias começa a correr a notícia que Ele havia ressuscitado. Alguns creram, porque o viram, outros ficaram reticentes, outros cobraram provas mais concretas. Mas pouco a pouco parece que a esperança vai se renovando. Se Ele voltou, tudo pode ser recomeçado. A esperança pode florescer novamente.

Em meio àquela dúvida ou incerteza, sem conseguir entender o que estava acontecendo, Pedro resolve: Tô nervoso, vou pescar, no que é acompanhado por Tomé, Natanael, Tiago, João e mais dois discípulos. Por que será que Pedro se propôs a pescar numa hora daquelas? Será que realmente estava precisando refrescar a cabeça? Será que, sem esperança, estava tentando retomar a antiga profissão, recomeçar a vida? Será que, por insegurança, sentiu necessidade de estar em um ambiente que considerava terreno conhecido, seguro, um ambiente em que ele conhecia e dominava as variáveis? Não sabemos, o certo é que enquanto ele estava procurando suas alternativas, Jesus se apresenta a ele e seus companheiros. No início Pedro não reconhece Jesus. Mas depois do milagre Pedro reconhece o Mestre e se lança no mar para encontrá-lo, típico do espírito impulsivo de Pedro. Ao saltarem em terra se depararam com uma janta pronta e Jesus lhes oferece pão e peixe, quase uma segunda versão da Santa Ceia, que serviu para que eles se lembrassem das promessas de Jesus e renovassem suas esperanças.

2 – A reabilitação de Pedro

Após o jantar Jesus chama Pedro de lado e para cada vez que Pedro o traiu, arranca dele uma declaração de amor. E depois de cada declaração Jesus reafirma um convite/tarefa: pastoreia as minhas ovelhas.

Interessante notar aqui a percepção, sabedoria e confiança de Jesus, como Ele via com olhos diferentes, como Ele via as possibilidades além dos sinais visíveis da realidade. Nenhum líder, normalmente, iria depositar confiança e responsabilidade em alguém que o houvesse traído tão claramente. Mesmo depois de muita prova de reabilitação, sempre ficaria uma dúvida ou um pé atrás. Jesus confiou plenamente e delegou uma missão importantíssima a Pedro porque via e confiava em seu potencial, porque sabia do que ele era capaz. Outra situação em que Jesus contrariava o senso comum era a seguinte: como delegar a responsabilidade de pastorear o rebanho a um homem com um espírito impulsivo como o de Pedro? Como não garantir que no primeiro embate ele não arrancaria novamente a orelha do opositor? Como imaginar um homem com o espírito de Pedro dando conselhos, sugerindo paciência, aconselhando? Porém Jesus viu nele a grande possibilidade de ser a pedra da futura igreja. A única condição é que antes de tudo houvesse o amor a Cristo. Pedro, tu me amas? Então pastoreia as minhas ovelhas.

3 – Condições para o pastorado

Para se exercer o pastorado, pela sua importância e responsabilidade, são necessárias diversas condições e características. Paulo, ao tentar regulamentar a profissão, elencou diversas características de personalidade e de comportamento que os líderes (pastores e bispos) deveriam ter. Gostaria aqui de, sem contrariar ou desconsiderar aquelas, destacar três condições que acho sejam fundamentais para aquele que se disponha a exercer o pastorado:

3.1 – Amor a Cristo e ao rebanho

Parece óbvio escrito, mas na prática nem sempre é tão óbvio. Tanto que Jesus exigiu de Pedro a reafirmação desse amor por três vezes enquanto lhe passava a missão. Se o nosso exemplo de amor é o próprio Cristo, a partir daí já podemos ter uma ideia do quanto esse amor, quando exercido em sua plenitude, exige de sacrifício e sofrimento. Amar a Cristo para o pastorado significa ter plena consciência de como o amor de Cristo se aplica em cada situação. Não é a repetição mecânica de fórmulas e regras, a reza mântrica de textos, argumentos e soluções. É depender de Cristo para saber qual a sua vontade naquele momento, naquela situação, mesmo que isso contrarie a realidade ou regras vigentes.

3.2 – Sabedoria

Pastor não é um gerente de linha de produção, onde basta seguir uma série de regras pré- estabelecidas, um manual, um check list, para que tudo dê certo. Pastorear significa compartilhar as experiências de vida, significa colocar em cada palavra dita, em cada conselho oferecido, em cada orientação dada, toda a carga de vida adquirida, não pelos anos, mas pelas experiências vividas e pelas lições aprendidas. É colocar em cada momento todo o sofrimento e alegria vividos, todos os erros e acertos cometidos. E sabedoria não se obtém lendo manuais, mas vivendo e aprendendo com a vida. Por isso é fundamental ao pastor arriscar-se a viver. Arriscar-se a acertar e a errar e acima de tudo, a aprender com tudo isso. Pastor que não se arrisca, que se protege colocando-se atrás de uma infinidade de regras e condições, se assemelha ao investidor que, aparentemente prudente, guarda o seu capital e não investe. Não perde nada mas também não ganha. Quando vier o dono do dinheiro, tirará dele e dará àquele que arriscou, que soube usar seu potencial.

3.3 – Conhecer o preço que se tem que pagar

Quando Jesus comissionou Pedro, deixou claro o preço que isso custaria. Como seria seu final de vida. É claro que sofrer não é regra si ne qua non para o pastorado, o que significa dizer, por outro lado, que quem não está sofrendo não é um bom pastor. Mas ao pastor deve ficar claro que a dor é uma possibilidade. Conduzir o rebanho pelos caminhos de Cristo significa contrariar os mapas e manuais do mundo, o que significa tensão, problemas, dor e sofrimento. “O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.” Quem não sabe ou não está preparado para isso não está preparado para ser pastor.

4 – Riscos do pastorado

O pastorado é uma missão dada pelo próprio Cristo, mas isso não exime de erros, equívocos e riscos para aquele que se propõe a atender a esse chamado. Gostaria de citar apenas três riscos a que o pastor se submete:

4 .1 – Achar que é o dono do rebanho

Quando Jesus chamou Pedro deixou bem claro qual era a missão: “Pastoreia as MINHAS ovelhas”. O rebanho é de Cristo. O pastoreado é delegação, é franquia. O Salmo 23 deixa claro: “O Senhor é o meu Pastor”. Jesus também não deixou dúvidas: “Eu sou o bom pastor.” Achar que o rebanho é propriedade sua é uma das maiores tentações do pastor. É quando ele acha que é o dono e o responsável pelas vidas e pelos caminhos das ovelhas, quando ele perde a percepção da direção do verdadeiro pastor e passa a tomar as decisões e dar as orientações segundo suas próprias convicções. A maior tentação nessa situação é achar que é o dono do poder e passar a usar esse poder. O pastor tem que sempre se lembrar que também é ovelha, que exerce essa função por delegação, que é responsabilidade dada pelo próprio Cristo e é a Ele a quem deve se reportar e obedecer.

4.2 – Achar que é o papa

Um grande risco também é o pastor, por estar exercendo uma função delegada pelo próprio Cristo, achar que é indispensável à comunhão com Deus. A Reforma preconizou o sacerdócio universal, quando deixou claro, contrariando o entendimento da igreja na época, que todos têm acesso liberado ao Pai, através de Cristo. Quando o véu do templo rasgou-se foi rescindido o contrato dos sacerdotes e um novo foi inaugurado. O pastor não era mais indispensável ao acesso a Deus, mas era responsável pela condução, instrução e aconselhamento do rebanho. Porém na prática muitos ainda se comportam como se fossem o único canal de acesso a Deus e às suas bênçãos. Sem a intercessão do pastor, sem sua benção, sem sua oração, nada pode acontecer.

4.3 – Achar que é infalível 

É o sentimento papal, achar que é o detentor da última palavra, da conclusão mais acertada. O próprio Pedro, já na direção da Igreja, assumiu posições erradas e foi admoestado por Paulo. O pastor deve ser humilde o suficiente para aprender com o rebanho. E a Igreja deve ser sábia o suficiente para ver o pastor como um homem sujeito às mesmas limitações e riscos de qualquer ser humano e estar disposta a ajudá-lo e ensiná-lo quando preciso.

5 – Conclusão 

Ser pastor é aceitar um chamado especial do próprio Cristo, e a condição fundamental para aceitar é amar Cristo e a Igreja. Pastoreado baseado apenas nos mandamentos, regras e leis, sem o amor radical por Cristo é opressão e legalismo.

Pedro, tu me amas? Pastoreia as minhas ovelhas”.

Devemos agradecer a Deus pelos pastores que temos, apoiá-los em oração e nas condições necessárias para seu sustento e exercício do pastorado.    

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