Sobre a polêmica com o Pastor Marcos Feliciano

Gostaria de expressar algumas ideias sobre a polêmica sobre o Pr. Marcos Feliciano.

Em primeiro lugar, creio que uma das causas de toda essa confusão é o fato de não sabermos, nós os cristãos, na prática, separar o pecado do pecador. Essa ideia faz parte da essência do cristianismo, mas na prática nunca conseguimos  fazer essa separação. Porque nunca precisamos. As sociedades, através dos tempos, sempre aceitaram e compartilharam dessa prática: se se quer combater a bruxaria, queimem-se as bruxas: se os muçulmanos são infiéis, que se organizem cruzadas para exterminá-los; se os protestantes são traidores da igreja, matem os protestantes; se os católicos são os inimigos da fé, matem os católicos. Mas em tempos em que as minorias estão aprendendo a se unir, a gritar, a exigir espaço e respeito, não basta identificarmos os representantes dessas minorias com as atitudes que os caracterizam como minorias. Não é mais aceitável matar o doente para extirpar a doença. Precisamos aprender como aceitar e acolher amorosamente o pecador, deixando bem claro que não compactuamos com o pecado.

Em segundo lugar gostaria de lembrar o contraste entre a atitude de Jesus e a do pastor Feliciano. Não há nenhum relato na Bíblia de que em qualquer momento Jesus tenha repreendido ou condenado um pecador por motivos morais ou de comportamento. Sempre Ele demonstrou primeiramente amor e aceitação e somente depois que a pessoa estava envolvida pelo seu amor vinha o conselho: Vá e não peques mais. Nas únicas vezes em que Jesus se exaltou, agiu com vigor e repreendeu explicitamente foi para condenar a hipocrisia religiosa e a manipulação da fé do povo.  A misericórdia é um valor fundamental  e distintivo do Evangelho. Enquanto as demais religiões pregam a justiça em primeiro lugar, o Evangelho prega a misericórdia. Não interessa se a mulher está certa ou errada, mas somente aquele que não tiver pecado tem direito a atirar a primeira pedra. Nunca vi uma pessoa misericordiosa de dedo em riste esbravejando, condenando. Prestem atenção nas fotos e na postura desse pastor e daqueles que o apoiam e defendem. Pensem em Jesus nessa posição. Seria possível?

Outro ponto que gostaria de chamar a atenção é para o fato de que alguns evangélicos estão se deixando levar ingenuamente nessa situação, transformando-a em guerra espiritual: os filhos de Deus contra os adeptos de Satanás. Essa discussão NÃO tem nada de espiritual ou teológica. É simplesmente uma questão política. Ninguém se posicionou contra um evangélico assumir a presidência da comissão, mas contra um indivíduo que se manifestou homofóbico, racista e intolerante. Fomos levados de carona.  Pensemos: as atitudes dele estão ajudando a Igreja evangélica? Estão abrindo portas para o Evangelho? Estão nos preparando para ajudarmos essas pessoas, se o quisermos? A sociedade pode ver Cristo nessa igreja que ele representa? A igreja está sendo usada espertamente com fins políticos. O pastor Silas Malafaia já “profetizou” que nas próximas eleições o Pastor Feliciano terá o dobro de votos que teve. Quem será beneficiado? Para o bem de quem tudo isso está sendo feito? No final ele ficará com os votos e a igreja com a imagem de intolerante  e preconceituosa.  Não tenhamos a ilusão de que se mantivermos essa posição ao fim teremos a compreensão das pessoas. Não esperemos tolerância à nossa intolerância.

Wilson Xavier Dias

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