A verdadeira adoração samaritana

Texto: João 4:1-42

Título: A verdadeira Adoração traz dignidade à mulher samaritana, por Nilson Pereira de Moura, pastor da equipe pastoral da ICB. Bacharel em Teologia pela FTBB com concentração em Ministério Pastoral.

 

É preciso resgatar a dignidade da mulher samaritana. Esta mulher tem por mais de dois mil anos sido caluniada, difamada e execrada na sua vida moral. Ouvi inúmeros sermões e até mesmo escritos de teólogos influenciados pela leitura moral do texto dizendo que a mulher Samaritana era uma mulher imoral, pois tivera cinco maridos. Se ainda estivesse vivia deveria nos processar por danos morais em defesa de sua honra. O evangelista quer com este relato resgatar a dignidade de todos os excluídos, marginalizados e acusados de idolatria. Jesus põe fim a uma religiosidade que discrimina e marginaliza as pessoas. Esta mulher não tem nome, pois representa todos os samaritanos que eram excluídos e marginalizados pelos judeus que os consideravam impuros e idólatras, a segunda parte da acusação é verdadeira.

 

Para entender este episódio é necessário fazer uma retrospectiva ao tempo do império de Davi e Salomão. Seu apogeu e sua decadência. Davi foi o construtor dos pilares do reinado (1010-970 a.C) e Salomão o construtor do apogeu e decadência (970-730). Em 730 o Reino é divido após a morte de Salomão entre Roboão seu filho, que governa Judá e Jerusalém (Reino do Sul) e Jorobão que governa Israel (Reino do Norte). Aqui nasce a rivalidade entre estes dois povos. O reino do norte ficou com as dez tribos e passa a ter a capital em Samaria onde foi construído um templo no monte Gerazim. Samaria é destruída em 722 pelos Assírios que levam seus habitantes ao cativeiro Assírio. A forma dos Assírios agir era muito diferente de todos dominadores da época, eles tinham como política a retirada do povo das terras conquistadas, menos os que não lhes ofereciam ameaças e perigos. Os pobres da terra. Depois traziam outros povos e recolonizavam as terras conquistadas.

 

Convido-os a fazerem leitura do texto bíblico que conta como fora formada cultura e a religiosidade sincrética dos samaritanos que se encontra no livro de 2 Reis17:24-41, texto da NVI:

 

“O rei da Assíria trouxe gente da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim e os estabeleceu na cidade de Samaria para substituir os israelitas. Eles ocuparam Samaria e habitaram em suas cidades. Quando começaram a viver ali, não adoravam o Senhor; por isso ele enviou leões para o meio deles, que mataram alguns dentre o povo. Então informaram o rei da Assíria: “Os povos que deportaste e fizeste morar nas cidades de Samaria não sabem o que o Deus daquela terra exige. Ele enviou leões para matá-los, pois desconhecem as suas exigências. ”Então o rei da Assíria deu esta ordem: “Façam um dos sacerdotes de Samaria que vocês levaram prisioneiros retornar e viver ali para ensinar as exigências do deus da terra”. Então um dos sacerdotes exilados de Samaria veio morar em Betel e lhes ensinou a adorar o Senhor. No entanto, cada grupo fez seus próprios deuses nas diversas cidades em que moravam e os puseram nos altares idólatras que o povo de Samaria havia feito. Os da Babilônia fizerem Sucote-Benote, os de Cuta fizeram Nergal e os de Hamate fizeram Asima; os Aveus fizeram Nibaz e Tartaque; os sefarvitas queimavam seus filhos em sacrifício a Adrameleque e Anameleque, deus de Sefarvaim. Eles adoravam o Senhor, mas também nomeavam qualquer pessoa para lhes servir como sacerdote nos altares idólatras. Adoravam ao Senhor, mas prestavam culto aos seus próprios deuses, conforme os costumes das nações de onde haviam sido trazidos. Até hoje (àquela época) eles continuam em suas antigas práticas. Não adoram o Senhor nem se comprometem com os decretos, com as ordenanças, com as leis e com os mandamentos que o Senhor deu aos descentes de Jacó, a quem deu o nome de Israel. Quando o Senhor fez uma aliança com os israelitas, ele lhes ordenou: “Não adorem outros deuses, não se inclinem diante deles, não lhes prestem culto nem lhes ofereçam sacrifício. Mas o Senhor, que os tirou do Egito com grande poder e com braço forte, é quem vocês adorarão. Diante dele vocês se inclinarão e lhe oferecerão sacrifícios. Vocês sempre tomarão o cuidado de obedecer aos decretos, às ordenanças, às leis e aos mandamentos que lhes prescreveu. Não adorem outros deuses. Não esqueçam a aliança que fiz com voes e não adorem outros deuses. Antes, adorem o Senhor, o seu Deus; ele os livrará das mãos de todos os seus inimigos. Contudo, eles não lhe deram atenção, mas continuaram em suas antigas práticas. Mesmo quando esses povos adoravam o Senhor, também prestavam culto aos seus ídolos. Até hoje seus filhos e seus netos continuam a fazer o que os seus antepassados faziam”.

 

Com fundamento no texto lido listei as cinco nações e os respectivos deuses cultuados por estas nações, os quais foram incorporados pelos Samaritanos ao culto à IAVÉ, o Senhor.

 

(1) Babilônia, o deus Sucote-Benote (2) Cuta, o deus Nergal (3) Hamate, a deusa Asima (4) Os Aveus, os deuses Nibaz e Tartaque (5) Sefarvaim, os deuses Adrameleque e Anameleque. (6) Israel é IAVE é o SENHOR, o Deus de Israel, o Deus da terra. Totalizando seis nações e 8 deuses cultuados em Samaria.

 

A história conta que em 586 a.C o primeiro templo fora destruído e o reino do Sul (Judá e Jerusalém) fora para o cativeiro babilônico. Que no ano 538 os judeus começaram a voltar sob liderança de Neemias, Esdras e Zorobabel que começou a reconstrução do 2º templo que foi destruído em 586 a.C. O segundo grupo retorna em 458 a.C sob liderança de Esdras, finalmente, em 432 a.C retorna o último grupo sob liderança de Neemias. Estes líderes se tornam vassalos de Ciro rei da Pérsia que conquista Babilônia em 539 a.C. Estes judeus voltam julgando-se puros e considerando os samaritanos impuros e pecadores por causa do sincretismo religioso e cultural. Esdras 4:1-5, a Bíblia NVI:

 

“Quando os inimigos de Judá e de Benjamim souberam que os exilados estavam reconstruindo o templo do Senhor, o Deus de Israel foram falar com Zorobabel e com os chefes das famílias: “Vamos ajudá-los nessa obra porque, como vocês, nós buscamos o Deus de vocês e temos sacrificado a ele desde a época de Esar-Hadom. Rei da Assíria, que nos trouxe para cá”. Contundo, Zorobabel, Jesua e os demais chefes das famílias de Israel responderam: “Não compete a vocês a reconstrução do templo de nosso Deus. Somente nós construiremos para o Senhor, o Deus de Israel, conforme Ciro, o Rei da Pérsia, nos ordenou. Então o povo da região começou a desanimar o povo de Judá e a atemorizá-lo, para que não continuasse a construção. Pagaram alguns funcionários para que se opusessem ao povo e frustrassem o seu plano. E fizeram isso durante todo o reinado de Ciro até o reinado de Dario, reis da Pérsia”.

 

Depois desta rápida explanação creio que podemos voltar ao texto de João 4:1-42 para afirmamos que a mulher samaritana não era uma prostituta, nem uma mulher que tivera cinco maridos. Ela tinha sim cinco deuses, os quais eram cultuados juntamente com Iave o Deus de Israel no monte Gerazim. Os deuses eram na realidade os cinco povos que repovoaram o reino do Norte, cuja capital era Samaria. Os samaritanos incorporam os deuses destes povos ao culto ao Senhor Deus de Israel. Praticando a idolatria.

 

A água que gera a vida eterna (1-15) para um povo que vivia no deserto a água era o bem mais precioso para a vida. O encontro da mulher samaritana com Jesus se dá junto a uma fonte, a um poço que segundo a tradição samaritana o poço fora dado por Jacó, (Gn 33:18-19). É junto de um poço que dá os maiores encontros do povo da Bíblia, senão vejamos:

 

a) (Gn 24:10-28), conta como rebeca fora escolhida para ser esposa de Isaque, à beira de um poço.

b) (Gn 29:1-14), conta como Jacó encontra-se com Raquel a beira de um poço. É uma linda história.

c) (Ex 2:16-22), encontro de Moises com as filhas de Jetrô e casamento com Zípora

d) (Jo 4:1-42), acontece o encontro de Jesus e a mulher samaritana.

 

A samaritana é a “esposa” que Jesus procura. É no meio dos marginalizados que Jesus acha sua “esposa”, sua Igreja. A samaritana que representa seu povo excluído e marginalizado que agora encontra sentido para sua vida. Ela está sedenta não de água de beber e sim sedenta para encontrar-se com o verdadeiro Deus de Israel. É o que está posto nos versículos 7-15. Jesus é fantástico, pois pega o tema do poço e apresenta o verdadeiro Deus.

 

A verdadeira adoração (16-26). Os cinco maridos simbolizam os deuses trazidos pelas cinco nações considerados pelos judeus como idólatras. É o que está posto em 2 Reis 17:24, 41:

 

“O rei da Assíria trouxe gente da Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim e os estabeleceu na cidade de Samaria para substituir os israelitas. Eles ocuparam Samaria e habitaram em suas cidades…41 Mesmo quando esses povos adoravam o Senhor, também prestavam culto aos seus ídolos. Até hoje seus filhos e seus netos continuam a fazer o que os seus antepassados faziam” (dias do autor de 2 Reis).

 

O deus dos cananeus chamava-se Baal, mas esta palavra tornou-se nome comum para designar todos os deuses. Na língua semítica, a palavra baal significa também “MARIDO”, portanto, aqui, é claro o jogo de palavras marido e Deus. Talvez tomando emprestada a idéia de Oséias 2:14-19 a Bíblia NVI traduz o texto:

 

“Portanto, agora vou atraí-la; vou levá-la para o deserto e falar-lhe com carinho. Ali devolverei a ela as suas vinhas e farei do vale de Açor uma porta de esperança. Ali ela me responderá como nos dias de sua infância, como no dia em que saiu do Egito. “Naquele dia”, declara o Senhor, “você me chamará ‘meu marido’. Tirarei dos seus lábios os nomes dos baalins; seus nomes não serão mais invocados. Naquele dia, em favor deles farei um acordo como os animais do campo, com as aves do céu e com os animais que rastejam pelo chão. Arco, espada e guerra, eu os abolirei da terra, para que todos possam viver em paz. Eu me casarei com você para sempre; eu me casarei com você e com justiça e retidão, com amor e compaixão. Eu me casarei com você com fidelidade, e você reconhecerá o Senhor”.

 

Voltemos aos versículos (16-30) para fazermos uma nova leitura, ou seja, usar outros óculos hermenêuticos sobre esse diálogo que Jesus tem com essa mulher sem nome e que representa todos os habitantes de Samaria, capital das dez tribos no norte. Ela não tem marido, mas tem vários deuses que eram cultuados no monte Gerazim, onde os samaritanos haviam construído um templo rival do templo de Jerusalém. O qual fora destruído por João Hircano em 129 a.C. vejamos o que a Samaritana diz no versículo 20 “Nossos pais adoraram neste monte (Gerazim); mas vocês, judeus dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. O questionamento desta mulher é em relação à verdadeira adoração. O diálogo de Jesus com a mulher Samaritana se dá em volta do verdadeiro culto ao verdadeiro Deus. Observem o que nos diz no verso (21-26):

 

No verso 25 “Disse a mulher: Eu sei que o Messias (chamado Cristo) está para vir. Quando ele vir, explicará tudo para nós”. Agora imagine o espanto e maravilhamento da samaritana ao ouvir da própria boca de Jesus no v. 26 – Então Jesus declarou: “Eu Sou o Messias! Eu, que estou falando com você”. Como ele mesmo disse em João 14:6 “Eu Sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. “Tudo que eu tenho feito” está relacionado ao culto idolátrico dos samaritanos aos deuses importados de outras nações e não à vida destes.

 

Os versículos (27-30) falam da intervenção preconceituosa dos discípulos e da atitude da mulher tocada pelas palavras do Senhor Jesus, o mestre por excelência e condutor do ser humano ao Verdadeiro Deus. Ela deixa os discípulos com seus preconceitos falando com Jesus e vai dizer aos samaritanos que encontrou um homem que pode ser o Cristo esperado “venham ver um homem que me disse tudo o que tenho feito”. Será que ele não é o Cristo?! Aceitam o convite da Mulher, e vão ao encontro de Jesus, o Cristo: “v.30 Então saíram da cidade e foram para onde ele estava” .

 

O verdadeiro semeador (31-42) é a conclusão magistral da missão de Jesus e dos seus seguidores. Semear e colher onde os corações estão ávidos para receber o Messias, o Cristo esperado. O texto começa nos informando que Jesus deixou a Judéia para ir a Galiléia para fugir dos Fariseus, e agora é encerrado dizendo que os samaritanos creram nele. Vejamos os versículos (39–42).

 

Conclusão. A mulher samaritana não tinha marido como ela mesma respondeu ao Senhor Jesus “Não tenho marido” (Jo 4:17). Tinha sim vários deuses trazidos pelas cinco nações que repovoaram o reino do norte. Deuses também cultuados juntamente com o Iavé, o Senhor Deus de Israel. Diante desta descoberta façamos justiça a essa mulher que simboliza todos os excluídos e marginalizados afirmando em alto e bom som que a samaritana não vivia uma vida imoral. Os samaritanos eram sim, cultuadores de muitos deuses. Quero ainda desafiá-los a fazer uma reflexão, uma autoanálise neste momento sobre quais são os seus deuses: poder, dinheiro, fama, mulher, filhos, trabalho, consumo, não o consumo necessário, mas o consumo de supérfluo que é característico dos nossos dias. Seu deus pode ser também a religião que sega e oprime em nome do Deus que liberta. Você cultua esses deuses? Saiba que está na hora de abandonar os falsos deuses e de converter-se ao Senhor Deus, o Soberano, o Senhor dos Senhores. o Senhor que diz “aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrario, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para vida eterna (Jo 4:14)”. Finalmente, fazer como a Samaritana que ao se encontrar com o verdadeiro Deus mediante Jesus Cristo, logo sai a anunciá-lo aos cativos de outros deuses como registrado nos versículos (29-30, 39). Este é o nosso desafio converter-nos dos falsos deuses e dos ídolos ao Deus verdadeiro e anunciá-lo aos cultuadores de falsos deuses. Disse a mulher samaritana “Não tenho marido”. Digamos também aos homens e a nós mesmos não “tenho marido”, ou seja, não tenho outro Deus a não ser Jesus Cristo encarnado do Pai por força do Espírito Santo. A verdadeira adoração traz dignidade à mulher à samaritana e todos que recebem a Jesus em seu coração.

Atualização / Resposta ao leitor Júnior

Prezado irmão em Cristo, Junior. Você me escreveu o seguinte:

“É mesmo? Queria saber o que a Samaritana quis dizer ao falar para o povo:
“Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?”João 4:29
Ela se referia aos deuses que ela adorava (que todos adoravam) ou a situação imoral que ela vivia?
Note a resposta anteriormente: “Vejo que és profeta”. O fato de falar detalhes da sua vida pessoal fez com que ela reconhecesse o messias. “Porventura não é este o Cristo”?
Ás vezes o texto é tão claro que a gente não quer acreditar no óbvio”.

Em primeiro lugar, agradeço sua visita ao sitio da ICB. Em segundo lugar, não escrevi esse texto com a intenção de polemizar, mas com a intenção de fazer uma leitura alternativa e compartilhar outro ponto de vista diferente do que já está cristalizado pela tradição e pela leitura classifica. O tema central da perícope é o lugar da verdadeira adoração. Jesus sabiamente usa a resposta da samaritana “não tenho marido” para apresentá-la ao verdadeiro Deus e a ele mesmo como o Messias que ela e povo samaritano esperavam.

A minha leitura da perícope não é a última palavra e nem é feita de forma literalista, mas do ponto de vista histórico da formação cultural e cultual dos samaritanos como já bem esclarecido no texto que o irmão já leu com muita atenção e amor.

Por último, tudo o que escrevi creio que já está bem clara a minha interpretação da perícope e não tenho nada mais a acrescentar. Respeito sua leitura e interpretação literal do texto. Apenas acrescentaria que o verdadeiro lugar de adoração é o coração. (Isaías 66.1-2:

“Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que espécie de casa vocês me edificarão? É este o meu lugar de descanso? Não foram as minhas mãos que fizerem todas essas coisas, e por isso vieram a existir? Pergunta o Senhor – A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra”. (NVI).


Saudações em Cristo Jesus Nosso Senhor.

Nilson Pereira de Moura, pr.