Ação e Intenção

                                                                                                           Wilson Xavier Dias

Texto: I Cor. 13:1-7; Fp. 1:15-18

Uma grande dualidade que sempre existiu no meio da humanidade é a contraposição entre duas maneiras de se justificar as nossas ações, principalmente aquelas mais polêmicas: o que eu chamo da diferença entre o pragmatismo e o idealismo, ou colocado em categorias mais conhecidas, seria a discussão se os fins justificam os meios ou não.

Classifico aqueles que advogam essa posição como pragmáticos. Se a minha intenção é boa, se os resultados esperados serão positivos para um número maior de pessoas, algumas concessões podem ser feitas, dentro de certos limites ou não, nos métodos utilizados para se chegar a esses fins.

Outros, que classifico como idealistas, advogam que não. Que não se é possível chegar a fins justos, certos, éticos, se os meios utilizados não forem da mesma natureza.

Filósofos já discutiram isso. Grandes barbaridades já foram cometidas utilizando-se desses pontos para se justificarem, ou outras não foram evitadas também com argumentos dessa discussão.

Situações imaginárias são colocadas para exemplificar pedagogicamente as dificuldades que isso representa, por exemplo:

Um terrorista está com o dedo no detonador de uma bomba que pode matar centenas de pessoas. Você está com uma arma em sua cabeça, com o dedo no gatilho. Matá-lo seria assassinato? Ou o fim justificaria o ato?

Há a história de um monge que acolheu um fugitivo da polícia, que, inocente, seria injustiçado se fosse preso. A polícia chegou e perguntou ao monge: “o fugitivo passou por aqui? “ O monge coloca uma mão dentro da manga do outro braço da batina e responde: “ por aqui, não.” Mentira ou misericórdia?

Há o caso de Bonhoeffer que, frente à realidade do nazismo e de toda a barbaridade que ele estava cometendo, e frente ao silêncio conivente e passivo da igreja, participou de um complô para matar Hitler, justificando que este seria um mal menor.

São situações muito difíceis de se tomar uma posição e justificá-la.

Nossa natureza normalmente nos leva a procurar justificativas para a opção que fizemos ou somos levados a fazer, por qualquer circunstância.

Criminosos nazistas sempre alegaram em seus julgamentos que cometeram todas aquelas atrocidades porque estavam cumprindo ordens, e o contra-argumento sempre foi de que o homem não precisa e não pode cumprir uma ordem se ela for errada. Para nós isso não deixa dúvida, quando o fim é uma ação má. Mas e quando o fim é nobre? Quando leis, padrões ou qualquer outro motivo são empecilhos para a realização de uma ação com fins e expectativas de resultados nobres e somos tentados a ignorar alguns desses empecilhos, a flexibilizar as regras?

A Bíblia também apresenta algumas situações que, a princípio parecem paradoxais e nos colocam frente a essas questões.

Paulo, em I Cor. 13, diz que nada do que formos fazer, grandes ou pequenos atos, se não forem motivados pelo amor, não valem nada. Ou seja, aqui ele deixa claro que a intenção é que determina o valor do resultado. Interessante notar que ele deixa implícito que mesmo sem amor todos esses sinais que ele descreve podem acontecer. Colocando de outra maneira: os resultados aparentemente maravilhosos, miraculosos, não são validação da boa fé do agente da ação.

Isso é particularmente pertinente hoje, quando vivemos a realidade de diversas igrejas e líderes que claramente têm intenções duvidosas ou até nem tão duvidosas assim, mas que procuram se validar pelos sinais que mostram, pelas multidões que arrastam e pelo número de pessoas que se convertem em seus grupos.

Em Filipenses o próprio Paulo diz que muitos com intenções espúrias (inveja e porfia) se apresentavam como pregadores do Evangelho. E Paulo, numa postura claramente pragmática, diz que a motivação não interessa, desde que o Evangelho esteja sendo pregado.

Como podemos entender e explicar essa diferença de postura de Paulo? É Paulo, como ser humano, demonstrando que também ele estava sujeito a essa ambiguidade quando era confrontado com situações específicas? Será Deus ensinando alguma lição de adaptação dos valores eternos e imutáveis do Reino à realidade transitória da vida humana ainda sujeita à ação do pecado?

Uma tentativa de compreensão está no foco em que cada texto se aplica. Em I Coríntios Paulo fala do valor da motivação na vida da pessoa que pratica a ação. Ele explica que se minha motivação não for o amor, qualquer ação que eu fizer, não trará para minha vida os benefícios que a ação realizada com amor traz. “… nada disso me aproveitará.” Nossa esperança de sermos participantes do Reino, de sentirmos as mesmas emoções que o amor produz ao ser disseminado, pode resultar em frustração e decepção se ele não estiver presente nas entranhas dos meus atos. Não temos como enganar o coração apresentando somente a fatura no final sem apresentar o diário de obras, a maneira como as coisas aconteceram, as motivações presentes em cada ato. O resultado não nos enche com a agradável sensação de conivência com o Espírito se no fundo sabemos que o amor não foi a motivação maior de nossas ações.

Já em Filipenses Paulo fala do ponto de vista da disseminação do Evangelho, do Reino. Mesmo que a motivação não seja pura, a pregação espúria pode despertar a curiosidade ou abrir a fresta por onde o Espírito pode entrar e “… convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo.”(Jo. 16:8). Para o pregador pode ser que aquela pregação não traga fruto, mas para o Reino nenhuma palavra lançada volta vazia. O Espírito aproveita tudo.

Isso talvez explique, voltando um pouco ao que já foi falado, porque presenciamos a ação real do Espírito Santo em igrejas ou grupos em que claramente sentimos a má fé de seus líderes e o entanto vemos vidas sendo transformadas. Para o líder “nada daquilo se aproveitará”, mas para o Reino são sementes lançadas onde pelo poder, misericórdia e graça poderão produzir por dez, cem ou mil.

Isso também nos tira o poder de julgar apenas olhando pelos resultados ou pela vida dos líderes. Mas o mais prático é examinarmos nossas motivações dos nossos atos de misericórdia: se não vierem entranhados de amor, para nós será esforço e tempo perdidos, para Deus será uma oportunidade a mais.

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