Como Orar

Série de sermões no PAI NOSSO (1):

COMO ORAR  – Mateus 6:5-13 

Julio Borges Filho

                           

A prática da justiça nos dias de Jesus: Boas obras, jejum e oração. A primeira fala da busca da justiça social entre as pessoas e da solidariedade com os necessitados (Mt 6:1-4); a prática da espiritualidade pessoal através do jejum com privação de comida e bebida para o corpo (Mt 6: 16-18); e a terceira fala da prática da justiça interior na relação com Deus através da oração. Tais prática estão relacionadas com o primeiro e o segundo mandamentos. Há porém perigos espirituais e de vida. Na primeira prática, o perigo de ser considerada uma pessoa boa, o que leva ao orgulho e a presunção; na segunda o perigo de ser considerado uma pessoa piedosa, espiritual, o que leva à ilusão; e na terceira os perigos de impressionar os outros através da oração, e de querer impor a Deus sua própria vontade, o leva ao orgulho espiritual.

Oração é orar com devoção a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças e de todo o entendimento, e esta é uma tarefa humana desde o início. Saber que tem uma pessoa acima de nós que nos ama e que estar atento às nossas necessidades e vida. Mas nem sempre se ora como se deve. É por isso que um dos pedidos unânimes dos discípulos a Jesus foi “Senhor, ensina-nos a orar…” – Lucas 11:1. Confesso que a oração é a tarefa mais sublime do ser humano. Por isso é tão difícil. Paul Tillich, um dos maiores teólogos do século 20, respondendo a uma pergunta se ele corrigiria algo em sua vida e posições se a recomeçasse de novo, disse: “Eu dedicaria mais tempo à oração”.

E Jesus nos ensinou a orar ensinando-nos o Pai Nosso. Jamais palavras simples tiveram tanta profundidade, e jamais um texto tão pequeno foi tão revolucionário. Porém, antes de aprendermos a orar, devemos desaprender, e Jesus nos ensina também como desaprender a orar.
 

COMO NÃO ORAR, vrs 5-8. 

Não se devemos orar para impressionar os outros como os hipócritas, vrs 5 e 6. Esta é a primeira lição de como não se deve orar. Tal oração peca no berço porque é centrada na pessoa que ora e não em Deus. A famosa parábola de Jesus do fariseu e do publicano orando no templo ilustra isso (Lucas 18:11-14). O evangelista narra que Jesus contou esta “parábola a alguns que confiavam em si mesmos e desprezavam os outros”. O fariseu “orava de si para si”. Temos aí uma oração de uma pessoa centrada em si mesmo e não em Deus. Na oração ele parabenizava a Deus por ter um filho como ele: “Não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros e nem ainda como este publicano; Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.” Enquanto o publicano num canto, de olhos baixo, batia no peito e dizia: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” Este orou a Deus e foi justificado, e aquele não, conclui Jesus porque “todo aquele que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado.”

A maquiagem religiosa e social nos dias de Jesus: Os fariseus. A palavra hipócrita é de origem grega e é usada para definir o papel do ator numa peça de teatro. Ele faz um papel que não é o dele. Na oração é um papel falso. Tal maquiagem religiosa é condenada por Jesus como um modo falso de orar que distorce a pessoa humana. Um estudioso da época de Jesus definiu os fariseus em sete tipos: o amante de Deus, como Gamaliel, o temente a Deus como Nicodemos e Paulo de Tarso, o pilão que vivia se curvando numa atitude piedosa, o cego que diante de uma mulher fechava os olhos e chocava-se com obstáculos à frente, o pontual que observava as horas de oração sempre num local público, o ombro que mandava bordar suas boas obras nas franjas de suas vestes, e mais um tipo cujo nome não me recordo agora.

A maquiagem religiosa nos nossos dias é estampada nos templos, nos púlpitos, no rádio, na TV, na internet e quase sempre objetiva impressionar os outros e manipulá-los. A voz rouca, a entonação dramática na oração e na pregação, etc. Os hipócritas estão em todas as religiões com um destaque para os evangélicos, especialmente nos ramos novos sem muitas referências históricas.

“Já receberam a recompensa”, sentencia Jesus. Queriam ser vistos e já foram. Não deve esperar nada de Deus. Esta é a primeira lição que Jesus quer nos ensinar: Para se conhecer Deus e a si mesmo é preciso ser uma pessoa transparente e desprovida de maquiagem social e religiosa.

Não devemos orar usando vãs repetições como os gentios, v 7. Eis a segunda lição que devemos aprender desaprendendo.

A teologia pagã baseia-se em muitos deuses, mas acima de todos, há Deus altíssimo, EL,  que é indiferente à sorte dos humanos. Para se chamar a atenção dele é preciso longas orações, penitências como ferir o próprio corpo, dançar, pular, gritar. Eles pensam, afirma Jesus, que por muito falar serão ouvidos. É a prisão das formas mágicas que seriam capazes de liberar o poder divino.

Um Deus surdo ou moco é estranho à fé cristã. A oração não é reza, um ritual mecânico e não oramos para informar a Deus, mas para abrir no nosso coração para Ele e sermos afetados por Ele. Nesse sentido, afirma Augusto Cury, nós precisamos de Deus e Ele precisa de nós porque não é um Deus solitário, mas solidário com seus filhos. Os grandes santos da igreja oravam muito, mas não viviam preocupados com o relógio. Viviam em comunhão com o Pai e aí o relógio não conta. O tempo é outro. Conta-se que o Marquês De Renty, um homem de oração, pediu seu secretário que o chamasse em 30 minutos porque ele precisava orar. Passaram os trinta minutos e o secretário olhou pelo buraco da fechadura e viu um quadro tão belo do marquês orando que não ousou interromper. Só depois de duas horas o chamou e o grande homem de Deus lamentou: “Puxa, como passa rápido trinta minutos quanto estamos na presença de Deus!”

O paganismo hoje… Sören Kiekegaard, o grande teólogo dinamarquês e pai do existencialismo moderno, tem uma parábola que fala disso: A oração do pagão e do cristão. O pagão, no templo do ídolo, orava ao ídolo, mas se derramava com todo seu sentimento, e sua oração transcendia o ídolo. O cristão, no templo do Deus verdadeiro, orava ao Deus verdadeiro, mas mecanicamente, mais por obrigação do que que por devoção. A conclusão do teólogo é magistral: “O pagão, no templo do ídolo, orava ao Deus verdadeiro; o cristão, no templo do Deus verdadeiro, orava ao ídolo.” A oração pagã continua nas rodas de oração do oriente, nos rosários e terços no catolicismo, e muito presente em nossas igrejas.

Duas afirmações importantes 

A primeira é a oração secreta recomendada pelo Senhor: “E tu quando orares, entra no teu quarto... E a oração comunitária estaria abolida? É claro que não. O Pai Nosso é uma oração comunitária como tantos hinos na Bíblia. Até mesmo secretamente a oração pode ser centralizada na pessoa que ora. Basta se fazer propaganda disso. Mas o hábito se se orar a sós com Deus nos leva à intimidade com Ele e é mais fácil de nos livrar dos perigos da oração acima mencionados, além de integrar nossa vida. Dois casos ilustram bem isso.

Quando assumi o pastorado da 1ª Igreja Batista de Teresina, PI, no dia 22 de fevereiro de 1972, não tive tempo de preparar dois jovens que iriam estudar no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil. Eles partiram no início de março, após serem enviados pela igreja e belo culto. Um mês depois recebi uma carta longa de um jovem, inteligentíssimo, comunicando que estava pensando em desistir do seminário porque não era o que ele esperava. Esperava um ambiente santo de pessoas contritas e de oração, e ilustrava dizendo que após o culto na capela ele entrava na sala de oração para orar. A Sala de Oração era uma sala pequena que tinha “as mãos que oram” de Albert Duran, na porta. Quando ele saía da sala seminaristas mundanos, dizia ele, chamava-o de “Santinho”, etc, e isso o estava incomodando muito. Diagnostiquei logo o problema e escrevi lhe dizendo que o problema estava nele mesmo e não nos outros. Se ele desejasse orar na Sala de Oração que o fizesse sem ninguém perceber. Logo após o culto na capela era só para chamar a atenção a si mesmo e para a sua falsa espiritualidade. O ambiente crítico e brincalhão dos seminaristas desmascarou isso. Este caso ilustra o fato de como a oração secreta pode ser adulterada.   Graças a Deus ele ficou, concluiu seu curso e hoje, aposentado, é um cristão saudável e talentoso a serviço do Reino.

No meu primeiro pastorado na Igreja Batista do Rio Largo, AL, havia um irmão que eu sempre pedia para ele orar nos cultos dominicais. Ele, um homem branco e alto, tinha uma voz de locutor como a de Cid Moreira, e sabia interpretar bem o sentimento da congregação. Era casado, mas sua esposa nunca tinha ido à igreja e não era crente. Resolvi visitá-la para surpreender o irmão trazendo-a à igreja achando que isso iria lhe trazer imensa alegria. Pastor novo, inexperiente, lá fui eu visitá-la. Era uma senhora alta, negra, e me recebeu muito bem oferecendo um cafezinho e água. E eu lhe: “Minha senhora, seu marido é um santo homem, e você nunca lhe deu a alegria de acompanhá-lo num culto da igreja… Por que?” Ela me olhou surpreendida e com um olhar duro respondeu: “Santo, só se for lá na igreja. Aqui em casa é um diabo”. E me contou horrores do marido. Saí triste e meditando sobre o ser humano e sua hipocrisia religiosa…

Se Deus já sabe. Para que orar então? Jesus afirmou que nosso Pai Celeste já sabe do que necessitamos antes de Lho pedirmos. Bem, a oração não é para informar a Deus, mas para nos colocar dentro de sua vontade santa para as batidas de nossos corações entrem no ritmo do Seu coração. Mais do que pedir é a comunhão com Ele que importa. E nesta comunhão nossas necessidades são filtradas e as necessárias satisfeitas.

 

COMO ORAR, vrs 9-13

           

            “Portanto vós orareis assim”:

 

  1. Atitude de filiação: “Pai Nosso que estás nos céus” 
  1. Atitude de reverência: “Santificado seja o Teu nome” 
  1. Atitude de submissão: “Seja feita a Tua vontade aqui na terra como no céu” 
  1. Atitude de dependência: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”
  1. Atitude de perdão: “E perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos a nossos devedores.” Foi a mais enfatizada por Jesus. 
  1. Atitude de humildade: “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal” 
  1. Atitude de louvor e adoração: “Porque Teu é o Reino, o louvor e a glória para sempre” 
  1. Amém (hebraísmo): Assim seja.

 

Desaprendendo: Temos de zerar nossas vidas jogando fora todo o lixo acumulado. No Pai nosso nossas mentes são emancipadas e nossa alma é libertada. E ninguém é excluído, nenhum sacrifício é exigido, nenhum dogma é proclamado e nenhuma lei é estabelecida.

Ao aprendermos a orar, aprendemos a viver, e isso tem de ser praticado sempre porque só aprendemos o que praticamos. E nesta Escola da Oração ninguém recebe o diploma. Somos sempre aprendizes no maior meio de comunicação do universo.

Cantemos “O Pai nosso sertanejo”, do saudoso Nabor Nunes Filho, meu colega de seminário, grande música e compositor, que Deus levou para si.

 

PAI NOSSO SERTANO (Nabor Nunes Filho)

 

Nosso Pai que estás nos céus, seja santo o nome Teu.

O Teu Reino venha e faças Teu querer e não o meu.

Nosso Pai, nós Te imploramos que nos dês o nosso pão.

Dá fartura pras cidades, manda chuva pro sertão.

Dá fartura pras cidades, manda chuvas pro sertão.

Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô,  – ô , ô, ô, ô , ô, ô, ô,

 

Nosso Pai que estás nos céus, nos ajuda a desculpar,

Pois assim é que Tu podes nossa vida melhorar.

Pois devemos perdoar ao criado e ao patrão.

Nos ajuda a quem tem fome estender a nossa mão.

Nos ajuda a quem tem fome estender a nossa mão.

Ô, ô, ô, ô ,ô,ô,ô, ô – ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

 

Nosso Pai que estás nos céus, livra-nos da tentação,

E nos guarda da maldade com a Tua proteção.

Pois é Teu somente o Reino, o poder é Teu também,

E a glória é toda tua, para sempre e sempre, amém

E a glória é toda tua, para sempre e sempre, amém

Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô,  – ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.