Corações abertos

– Tiago 2:1-13

Julio Borges Filho

O texto bíblico na versão da linguagem contemporânea:

Meus amigos, não deixem que a opinião dos outros interfira na maneira de viver a fé gloriosa no Senhor. Se um homem vestido com roupas de grife entra na igreja e vocês dizem: “Sente-se aqui, meu prezado, este é o melhor lugar”, mas se entra uma pessoa pobre, vestido de roupas velhas, vocês a ignoram e dizem: “É melhor sentar ali no fundo”, então vocês estão discriminando uma pessoa aceita por Deus e provando que são juízes que não merecem confiança. Escutem! Vocês não sabem que Deus não é como nós?Ele escolhe gente desprezada pelo mundo para serem primeiros cidadãos do Reino, com plenos direitos e privilégios. O Reino foi prometido a todos que amam a Deus. Como podem menosprezar esses mesmos cidadãos? Não são os grandes e poderosos que exploram vocês nos tribunais? Não são eles que difamam nosso nome de batismo – “cristão”?

Vocês devem cumprir o Princípio Maior das Escrituras: “Ame o próximo como a vocês mesmo.” Mas, quando vocês ficam bajulando pessoas ditas importantes, quebram esse princípio. Vocês não podem escolher o querem cumprir na Lei de Deus e ignorar o restante. O mesmo Deus que disse: “Não adulterarás” também disse: “Não matarás”. Se alguém não adultera, mas mata, acham que uma coisa cancela a outra? Não, quem mata é assassino e ponto final!

Falem e ajam com quem espera ser julgado pela lei que liberta. Porque se vocês se recusam a agir com bondade, não devem esperar tratamento gentil. A misericórdia, que é gentil, sempre vence o julgamento que é severo.

 

Tiago, o irmão do Senhor e grande pastor da Igreja de Jerusalém, é franco, direto e teimosamente atual em sua carta. Conta-se que um pastor americano, subversivo e gaiato, distribuiu um panfleto num retiro de pastores do sul dos Estados Unidos em cor vermelha. Houve um protesto geral acusando o panfleto de propaganda comunista e importuno para a ocasião. Tratava-se simplesmente do capítulo 5 da carta de Tiago onde ele condena os ricos de seu tempo. A carta de Tiago não é epístola de palha, como achava Lutero. É atual e necessária à Igreja. No precioso texto que está diante de nós Tiago nos inspira a termos corações abertosna Igreja para acolher bem as pessoas que nos são enviadas por Deus.

O texto é próprio para a nossa Igreja que, teoricamente, é uma Caverna de Adulão onde os feridos, endividados e amargurados de espírito têm abrigo. Tiago nos ensina aqui preciosas lições para uma igreja aberta e sem preconceitos. Vamos a elas.

 

Lição 1: Não viver de acordo com perspectiva dos outros

Meus amigos, não deixem que a opinião dos outros interfira na maneira de

Viver a fé gloriosa no Senhor… – v. 1

Importa obedecer a Deus e não aos homens, como nos ensinou Pedro em suas palavras diante do Sinédrio judáico (Atos 5:29). Viver na perspectiva dos outros é viver uma vida falsa que nos leva a doenças e à esquizofrenia. Somos uma pessoa e aparentamos ser outra. Esta é a causa da doença espiritual de muitos, especialmente líderes religiosos. Às vezes a opinião dos outros vem em forma de elogios… É preciso exercício da humildade para termos o real conceito sobre nós mesmos. Além da humildade, auto-exame constante. O cristão nunca de ser uma “Maria vai com as outras”, e nunca deve agir para impressionar os outros como os fariseus no tempo de Jesus. Vivemos a fé gloriosa no Senhor, sem hipocrisias. Tal fé vai nos moldando à imagem de Jesus, o que é o objetivo da vida cristã.

 

Lição 2: Dizer não a qualquer forma de discriminação

“Se um homem vestido de roupas de grife… , mas quando entra uma pessoa

Pobre, vestida de roupas velhas…” – vrs. 2-4

Tiago nos dá um exemplo clássico: o rico é bem-tratado por causa de suas roupas finas, e o pobre é mal-tratado por causa de seus andrajos. É a impressão da moda. Lembro-me de uma preciosa irmã que queria trazer madames pra nossa sala, mas se preocupava-se porque a sala não estava à altura delas. São falsos julgamentos pré-conceituosos. O pré-conceito é um julgamento a priori sem se conhecer a pessoa julgada. Pode ser feito pelo roupa, raça, religião, sexo, cultura, nacionalidade, posições políticas e ideológicas.

Jesus viveu numa sociedade fechada e preconceituosa, mas nunca discriminou ninguém. Ele elogiou a fé do Centurião romano dizendo que nem mesmo em Israel tinha encontrado fé igual. Reconheceu uma grande fé na mulher cananita, conversou longamente com a mulher samaritana, sozinho, à beira de um poço, a ponto de escandalizar seus discípulos, tinha amidas íntimas (Marta e Maria, de Betânia, e Maria Madalena), e era amigo de publicanos e pecadores. Paulo escreve que em Cristo todas as barreiras que dividem a humanidade são derrubadas (Gálatas 3:28 e Colossenses 3:11).

A comunidade cristã deve ser uma comunidade de corações abertos. Qualquer pessoa deve ser bem-vinda. É Deus que a envia. Jim era um negro americano crente e chefe de família. Foi transferido para outra cidade e procurou no domingo uma igreja para se congregar. Achou uma igreja de brancos, mas gostou do coro e do pastor. Após o culto conversou com o pastor para solicitar sua carta de transferência de sua igreja de origem. O pastor, conhecedor de sua igreja, disse a Jim: “Irmão Jim, ore durante a semana se é isso mesmo que Deus quer para você e sua família, e no próximo domingo me diga qual a resposta.” Jim fez isso e retornou no domingo seguinte e o pastor lhe perguntou: “E aí, irmão Jim, o que Jesus lhe disse em resposta à sua oração?” Jim respondeu: “Ele me disse que eu desistisse de entrar para sua igreja porque há vinte anos Ele tenta entrar nela e não consegue.” Esta pequena história nos diz que o preconceito expulsa Cristo da igreja e, consequentemente, expulsa a quem Ele envia. Não aceitar o nosso irmão e não aceitar o Senhor Jesus.

 

Lição 3: A opção preferencial pelos excluídos

“Escutem! Vocês não sabem que é Deus é como nós? E escolhe gente

desprezada pelo mundo primeiros cidadãos do Reino, com plenos

direitos e privilégios… – vrs. 5-7

Esta opção não é invenção da Teologia da Libertação, mas bíblica tanto no Velho quanto no Novo Testamentos. No VT Deus é o Deus que ouve o clamor do seu povo oprimido no Egito, que usa os profetas de Israel como porta-vozes da justiça social condenando a elite e defendendo o direito dos pobres. A própria legislação mosáica já prevê a exploração do fraco pelo forte e dá instruções que houvesse justiça social.

No NT vemos Jesus lançando seu Manifesto de Nazaré (Lucas 4:18 e 19) citando o profeta Isaias: “O Espírito do Senhor está sobre mim (a dinâmica de seu ministério), pelo que me ungiu para evangelizar os pobres(os excluídos da ordem econômica), enviou-me a proclamar liberdade aos cativos(os deserdados da ordem política), e restauração da vista aos cegos (os excluídos da saúde), para por em liberdade os oprimidos (os excluídos da ordem moral e religiosa), e apregoar o ano aceitável do Senhor(o ano do jubileu, o ano da justiça). A opção de Jesus pela Galiléia deixa claro sua opção pelo povo e não pelas elites de Jerusalém. Suas exigências aos ricos eram radicais como prova o exemplo do jovem rico e de Zaqueu. Aquele importava-se mais com suas riquezas do que com os pobres ou mesmo Deus; este realmente se converteu porque a metade de seus bens iria para os pobres e estava disposto a devolver o que roubou com juros e correção monetária. Jesus se identificou com o faminto, o sedento, o forasteiro, o nu, o enfermo o preso (Mateus 25:35 e 36) e disse que seremos julgados por negligenciarmos isso. O primeiro problema da Igreja de Jerusalém, conforme Atos 6, foi o esquecimento das viúvas helênicas na distribuição do pão ferindo assim a unidade belíssima da primeira comunidade cristã. A instituição dos sete diáconos, todos de origem grega, nos diz que é prioritária a justiça social na Igreja. O Apóstolo Paulo trabalhou muito bem esta questão na oferta para os pobres de Jerusalém defendendo a justa distribuição de bens entre os cristãos (2 Co. 8:14 e 15). Ele defende que a justiça social deve começar entre os da família da fé (Gálatas 6:10). A Igreja deve ser uma maquete do Reino na terra. O seu modo de justiça interna deve ser modelo para o mundo. O Apóstolo João afirma categórico em 1 João 3:17: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?

Robert Lithicum defende que na cidade a igreja deve alcançar dois grupos: Os perdidos da classe média e rica, e os pobres. Ele afirma que a evangelização seria incompleta se os que têm muito não se convertessem aos pobres.

 

Lição 4: O princípio maior: “Ame o próximo como a você mesmo”

Aqui Tiago coloca o segundo mandamento como o princípio maior das Escrituras. Paulo concorda com ele quando diz que “quem ama o próximo tem cumprido a lei” e que “o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:8 e 10). E mais: aponta aos coríntios o caminho sobremodo excelente: o amor (1Co. 13). João também pontifica em 1 João 4:20: “Se alguém disser: amor a Deus e odiar o seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê.”E Jesus disse que o sinal do cristão é o Novo Mandamento pelo qual devemos nos amar uns aos outros como Ele nos amou. E conclui dizendo: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:34 e 35).

“Quem é o meu próximo?”, perguntou o escriba a Jesus, e Jesus inverteu a pergunta contando a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) com três personagens que passam pelo caminho de sangue (O sacerdote, o levita e o samaritano): “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” Responde o intérprete da lei: “O que usou de misericórdia para com ele”. E Jesus lhe ordenou: “Vai e procede tu de igual modo”. Não se pode fugir do desafio de se amar o próximo porque eu sou próximo daquele ou daquela que, numa situação de crise, atravessa meu caminho.

O caminho da compaixão é o caminho do cristão. Somos desafiados por Jesus a amar até nossos inimigos. E, conclui Tiago: Se julgarmos sem misericórdia, seremos julgados sem ela. Mas se usarmos a misericórdia também seremos julgados por ela, e o resultado é a plena liberdade dos filhos de Deus.

 

Estamos inaugurando hoje uma nova página de nossa igreja. Ela vai crescer. Cada pessoa que Deus nos enviar deve ser aceita sem reservas. Ela não será julgada pelas regras da sociedade injusta e cruel, mas será aceita como cidadã do Reino de Deus. O poder de atração desta Caverna de Adulão é o poder do amor. O preconceito afasta as pessoas, o amor atrai. Portanto, pratiquemos as lições de Tiago:

1ª) Não viver de acordo com perspectivas do outro;

2ª) Dizer não a qualquer forma de discriminação;

3ª) A opção preferencial pelos excluídos; e

4ª) Viver e agir de acordo com o princípio maio das Escrituras Sagradas: o amor.

Que sejamos unânime nisso. E se formos fiéis a esses ensinamentos, seremos uma bênção para esta cidade. Alarguemos, pois, nossos corações para uma abertura mais humana e mais cristã. Sejamos ainda mais amorosos como nosso Senhor o foi.

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.