Evangelho de João: O Senhor da qualidade

EVANGELHO DE JOÃO: VIDA PARA A CIDADEPastor Julio Borges Filho

Sermão 1: O SENHOR DA QUALIDADE – João 2:1-11

Introdução:

– Vimos na mensagem introdutória, em vídeo, que João coloca o prefácio de seu Evangelho no fim – João 20:30 e 31: Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos, muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Este, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o ;Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. Vimos, ainda, que o livro se divide em três pastes: O Prefácio, capítulo 1; o Livro dos Sinais, de 2-11; e o Livro da Paixão, de 11-21. O objetivo primeiro era evangelizar a cidade de Éfeso do mundo grego povoado de estórias. Em segundo lugar João pretendia convencer os judeus de que Jesus é o Messias prometido. Usa, então, sete milagres chamados de sinais.

– O primeiro sinal foi numa festa de casamento em Caná da Galiléia. A apresentação de Jesus aqui é clara: Jesus é o Senhor da qualidade. A vida com Ele é de superior qualidade. É vinho excelente. Aproximemo-nos do texto com a mente e corações abertos para recebermos suas maravilhosas lições. Aliás, o Evangelho de João tem duas características: a simplicidade para que todos entendam a mensagem, e a profundidade que exige um exame minucioso do texto.

I. O contexto Bíblico do sinal

1. Quando aconteceu? – Numa festa de casamento

Na Palestina um casamento era uma ocasião especial, um dia miraculoso. Uma festa de casamento podia durar uma semana. A cerimônia acontecia geralmente à tarde precedida de uma festa. A noiva era conduzida já à noite pela rua mais larga em procissão com candeeiros acesos até à casa do noivo. Não havia lua-de-mel, pois durante uma semana os noivos eram visitados e tratados como reis e deviam estar com vestes nupciais. Jesus se sentia à vontade numa feste de casamento. Ele gostava de festas. Ao contrário de João Batista, era sociável e alegre. Celebrava a vida. E o que seria de nossa vida sem a voz dos noivos? Jeremias 25:10 e Apocalipse 18:22 e 23 pintam um quadro terrível da cidade sem voz do noivo e da noiva, sem a música e as artes. Em Jeremias é o caos do cativeiro babilônico; e no Apocalipse é a ruína da Babilônia, a cidade do mal. O mundo perderia o sentido: a alegria, o amor, a poesia, a fé e a esperança. O poeta já exaltava isso no belo poema Um sonho coberto de rosas:

A vida é um sonho coberto de rosas

Quando se tem um amor.

Pode haver espinhos que ferem,

Pode haver dor que maltrata.

Mas para os que amam na vida

Cada instante é uma pétala dourada

De um sonho coberto de rosas.

E a fé, a esperança e o amor são as virtudes teologais sem as quais a vida seria impossível. Assim o Senhor Jesus marca sua presença num casamento e nele opera seu primeiro milagre.

2. Onde aconteceu? – Numa casa humilde em Caná da Galiléia.

É importante salientar a presença de Jesus no cotidiano da vida. Ele gosta do lar e de sentar-se à mesa. Precisamos recuperar uma teologia do cotidiano que vê a ação de Deus, não apenas em coisas espetaculares, mas nas coisas simples: no choro da criança, no cheio da comida, nos problemas e alegrias domésticas. Creio que foi pensando um casal com um filho que Jesus disse: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou no meio deles. Na vila de Caná da Galiléia, numa festa de casamento de uma família humilde, Ele manifestou pela primeira vez a sua glória (doxa em grego = beleza e peso de Deus). E ali seus discípulos creram nele, afirma João. Compreenderam que Ele era mais que um Rabi, mas o Salvador do mundo.

3. Por que aconteceu? – Para evitar a humilharão de uma família.

Jesus atuou movido pela beleza simpática de Deus. A palavra kalos, grego, expressão isso: é a calorosa simpatia de Jesus que evita uma tragédia familiar. No oriente a hospitalidade sempre foi um dever sagrado. Faltar vinho no melhor da festa seria um completo desastre a ser relembrado por muitos anos. O casal iniciaria a vida conjugal em crise e a família envergonhada. Ademais Jesus tinha culpa nisso: convidado, leva consigo seus discípulos aumentando consideravelmente o consumo de bebida e comida. Assim o senhor evitou uma tragédia familiar e social na pequenina Caná da Galiléia. É através de atos de bondade que podemos demonstrar que somos seguidores de Jesus.

4. A confiança de Maria em Jesus

Um evangelho cóptico do Egito diz que Maria seria irmã da mãe do noivo, que seria Salomé, e documentos antigos afirmam que João, o apóstolo, era o noivo. Se isso é verdade ou não, o certo é que Maria tinha algo a ver com a organização da festa, tanto que dá ordens aos serventes. José provavelmente já teria morrido, porque não se fala nele. A ação de Maria é decisiva e revela sua fé em Jesus revelada em dois atos: leva o problema a Jesus (Eles não têm mais vinho), e, mesmo com a aparente negação dele (Muler, que eu eu contigo? Anda não é chegada a minha hora), ela continuou crendo porque ordenou aos serventos: Fazei tudo o que ele vos disser. Este é o único mandamento de Maria, a maior de todas as mulheres, e ele é básico para nossas vidas.

II. A interpretação do sinal

  1. Do ponto de vista judaico: a imperfeição da Lei

 

O texto fala de seis talhas de pedra. Seis é o número incompleto, inacabado, imperfeito, enquanto sete é o número da perfeição. A besta o Apocalipse tem o número 666, isto é, imperfeição absoluta. Jesus veio eliminar as imperfeições da Lei e substituí-las pelo vinho novo do evangelho da graça. Quando a graça de Deus é derramada é abundante e de superior qualidade. As seis talhas significariam de 400 a 700 litros de vinho bom, como disse o mestre sala. Não há ninguém bom de mais que não careça da graça de Deus, nem ninguém mau demais que não seja alcançado por ela. É superabundante graça e, como diz o famoso hino, maravilhosa graça. O pastor Tarsis Wallace tem um hino cujo refrão diz: O reino da Graco o mundo invadiu, e minha desgraça em Cristo sumiu.

 

  1. Do ponto de vista grego: desmitificação

 

Dionísio, na mitologia grega, era o deus mais popular, especialmente para os homens. Era o deus do vinho e da vida prazerosa. Há uma estória de um milagre impressionante dele. No templo dele em Elis, a um quilômetro e meio da cidade, sacerdotes levaram três grandes caldeirões vazios e trancaram bem no tempo selando a porta. No dia seguinte, ao retornarem acompanhados, os três caldeirões estavam cheios de vinho. João, então, diz aos gregos: Vocês têm histórias e todos sabem que elas não são verdadeiras, mas eu lhes apresento Jesus Cristo que pode transformar suas vidas aguadas em vinho maravilhoso. Ele veio trazer a verdade e a vida bela com as quais vocês sonham.”O vinho que ele produz é de superior qualidade.

 

III. O SENHOR DA QUALIDADE

 

  1. Jesus dá alegria e vida à família

 

Esta história foi escrita no fim do primeiro século, e ela é atual hoje. Jesus quando entra em uma casa ou em uma vida transforma convertendo água em vinho. Quando pastor da 1ª Igreja Evangélica Batista de Teresina, entre 1972 a 1978, acordei com um amado casal da igreja na cabeça. Quando isso acontece devo visitar. Passou a manhã e não visitei, mas lá pelas 15 horas, a sensação era irresistível e me dirigi a casa do casal. A chegar vi malas na varanda e pensei que o marido fosse viajar. Julguei ter chegado na hora imprópria porque não avisei. Toquei a campainha e o esposo veio atender. Perguntei-lhe se iria viajar e ele disse que estava saindo definitivamente de casa porque sua esposa não o amava. A esposa era bem mais jovem do que ele e, na época, meio sem juízo. O casal tinha três filhos lindos, uma menina e dois meninos. Pedi que ele me esperasse na sala e entrei no quarto de casal onde a esposa estava sentada na cama chorando. Conversei com ela e ela me disse que o amava e que não queria que ele fosse embora. Chamei-o. Ele entrou no quarto e eu pedi a ela que dissesse a ele que dissera a mim. Ele repetiu que o amava e foi aninhar-se nos braços dele. Ele chorou. Fiz um oração a Deus agradecendo pela vida do casal. Um ano depois estava num domingo no gabinete pastoral antes do culto da manhã quando casal entrou feliz dizendo: “Pastor hoje faz um ano do nosso segundo casamento. Dê graças a Deus conosco”. E eu orei de novo. Acho mesmo que muitos casais se separam por falta de humor, e não por falta de amor. Recomendo o livro “Faça cócegas na alma”como essencial para se cultivar a alegria em casa. A presença de Jesus no Lar faz maravilhas transformando situações aguadas em vinho maravilhoso. Com Ele o vinho melhor vem sempre depois.

 

  1. Jesus é a vida para a cidade

 

Estou grávido de um livro “Dramas urbanos imagináveis”sobre as tragédias de uma cidade. Há lugares e corações onde a ausência de Cristo é total, e mesmo em lares de crentes há crises terríveis, palavras feridas, desamor e ódio. Quando Jesus é convidado, Ele intervém evitando desfechos terríveis e destruidores. Uma das minhas passagens prediletas nos evangelhos é aquele onde Jesus contempla Jerusalém e chora sobre ela lamentando: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. Quantas vezes quis eu abrigar teus filhos como galinha abriga seus pintinhos debaixo das asas, e tu não o quiseste.”Jesus é vida para a cidade.

 

Conclusão:

 

– Tenho visto este milagre repetido em muitos lares em muitos lugares. Um marcante em meu ministério foi quando pastoreava a 1ª Igreja Batista de Ilhéus, Bahia. Uma jovem virtuosa e talentosa começa a namorar com um homem separado e machucado pela vida, mas crente. O pai adotivo, o irmão José Bento, de saudosa memória, era um patriarca e fazendeiro de cacau. O pastor anterior tinha me alertado sobre ele dizendo ser muito perigoso porque chegava a interromper sermões para discordar do pastor. Era um anti-dizimista convicto. Reagiu duro chamando a filha de adúltera e cobrindo de impropérios o jovem separado. Chamou-me à sua casa para dizer-me que eu estava acoitando o casal e que isso não era papel de um pastor. Disse-lhe então, que ele não sabia o que estava dizendo e que eu via no romance a ação de Deus, mesmo porque ele já estava velho e cardíaco com várias pontes de safena e acrescentei o famoso versículo paulino: Todos as coisas cooperam para o bem dos que são chamados por Deus… Ele me respondeu que não concordava com Paulo. Os dias foram passando e eu com data marcada para deixar o pastorado da amada igreja. O irmão José Bento, tornou-se dizimista e me mostrava o dízimo de tudo. Doou as alvenarias e o cimento para a construção do edifício de educação religiosa da igreja. Tudo, dizia ele, “para Deus ter misericórdia de mim e por fim ao namoro.”Um dia inesquecível ele me chamou numa tarde à sua casa. Estava apressado. Eu fui prontamente, mas apreensivo. Quando cheguei encontrei a família reunida: a esposa, a filha mais velha, a filha adotiva e o homem namorado desta. Silêncio sepulcral. Aguardavam minha chegada. Tão logo entrei na sala, o velho tomou a palavra e dirigiu-se primeiro a mim dizendo ser eu um homem de Deus, um pastor corajoso que não se acovardava diante das pressões dele e da igreja. Depois virou-se para o jovem dizendo: “Moço, perdoa-me. Eu só não lhe chamei de santo, mas reconheço que você foi sincero e transparente com minha filha…” Olhou para a filha adotiva, filha do seu coração, e disse: “Filhinha, perdoa seu velho pai. Eu estava errado. Você só tem me dado alegrias na vida.” E, finalmente, olhou de novo para mim dizendo que eles não poderiam esperar o divórcio dele porque o rapaz não agüentaria. Eles tinham seu consentimento para casar-se num consulado com uma condição: “Que o pastor Julio faço o casamento religioso. Eu mandarei as passagens de Brasília para Ilhéus para ele e a esposa.” E, num gesto lento, meteu a mão no bolso e tirou duas alianças dizendo: “quero que vocês fiquem noivos aqui agora na frente do pastor e da família.”O choro foi geral. Choravam os namorados, a esposa, a filha e eu. Celebrei o noivado, fiz uma oração de gratidão, e retornei ainda dando graças a Deus por tão linda página no meu ministério. Até um velho muda de água pra vinho se Jesus intervém!… Seis meses depois retornei com minha esposa a Ilhéus para celebrar o casamento. Um ano depois o irmão José Bento morreu em paz com Deus.

 

– Se queremos vida de qualidade superior, vida abundante, só Jesus pode oferecer. Ele produzirá, no caminho de nossa vida, a transformação da água em vinho. E vinho bom, pois Ele é o Senhor da qualidade.

 

 

*Sermão pregado na Igreja Cristã de Brasília no domingo 20 de fevereiro de 2011.

 

 

 

 

 

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.