INDIGNAÇÃO & COMPAIXÃO

 Julio Borges Filho/Marcos Monteiro

Indignação e Compaixão
Mt 23

 “Jerusalém, Jerusalém! Que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!”  Mt 23:39

            Sentando no templo de Jerusalém, Jesus pronuncia um indignado discurso, verdadeiro libelo contra os fariseus e escribas, autoridades políticas e religiosas, das mais respeitadas entre o povo. O discurso é feito na presença dos mesmos, em estilo profético, a partir de uma sucessão de “ais”

Somente para comparar, os “ais” de Isaías, capítulo seis, são na terceira pessoa, aqui a confrontação é direta, verdadeira denúncia não contra um fariseu em particular, mas contra todo o grupo e todo o sistema farisaico.

O discurso é continuidade dos atos proféticos simbólicos. Ocupado o templo, símbolo de espaço e tempo sagrado (o mais sagrado dos espaços e dos tempos – a palavra “templo” vem da mesma raiz de “tempo”), instaurada a misericórdia como característica sagrada, na cura de cegos e coxos, o profeta Jesus de Nazaré começa o julgamento dos líderes nacionais com um forte pronunciamento de acusação.

A acusação parece fundamentalmente religiosa e toca no ponto mais sensível da teologia vigente: a idolatria. Essa atitude tem conseqüências econômicas e políticas, reforça a exploração tributária e legitima a violência estrutural, onde pobres, como as viúvas, e cidadãos livres, como os profetas, são sempre as vítimas principais.

O seqüestro dos símbolos sagrados
Mt 23, 1-12

Os escribas e fariseus sentaram-se a força na cadeira de Moisés, amam a adoração popular e gostam de serem considerados mestres, pais ou guias. Para Jesus, isso é atitude de usurpação do reservado e reivindicado por Deus, seqüestro de símbolos sagrados, o que é idolatria.

São perfeitos no discurso, mas lamentáveis na prática, cultivam a própria imagem de modo ególatra, estabelecendo uma cultura de privilégios que desfaz a fraternidade e igualdade de todos.

Jesus tem uma compreensão radical do sistema de titulação e de atribuição de méritos: ele não sintoniza com a idéia da igualdade de irmãos no Reino de Deus. Entre irmãos não há mestres, pais ou guias. Atitudes individualistas, elitistas e paternalistas não constroem comunidade, mas causam cisões estruturais permanentes nos grupos.

Querer ser chamado de mestre é egolatria e chamar outro de pai é idolatria. Ter um só Deus e um só Cristo é cultivar relações de mutualidade, vivendo-se em comunidade e deixando-se guiar como uma criança apenas pelo Cristo.

A sacralização da exploração econômica
Mt 23,13-24

            O conjunto de textos começa com surpreendentes e gravíssimas asseverações sobre a religiosidade dos fariseus. Os fariseus e os seus escribas, por mais que estudem, não entendem do Reino de Deus, do modo de Deus agir, e ainda querem proibir os outros de entenderem.

Ainda mais, têm a mania de desrespeitar a religiosidade de outros povos, “rodeiam o mar para fazer um prosélito”, sem perceber que o problema é a sua própria religiosidade. Dizendo com outras palavras, Jesus afirma que a religião dos fariseus é duas vezes pior do que a religião dos pagãos.

Essa religiosidade danosa se desenvolve através de motivações econômicas suspeitas, devora a casa das viúvas, e de uma absoluta inversão de valores: a oferta do altar e o ouro do santuário seriam mais sagrados do que o altar e o santuário – o que é um contra-senso.

Uma religiosidade que defende a tributação minuciosa, da hortelã, do endro e do cominho, que prejudica apenas o pequeno camponês, sem o igual cuidado com os fundamentos de qualquer tributação: a justiça e a misericórdia.

Além da violência simbólica
Mt 23,25-36

Através das metáforas sobre “fora” e “dentro”, “exterior” e “interior”, Jesus ataca o sistema de “pureza” e “impureza” que norteia a maioria das ações de toda a sociedade. Pureza e impureza são noções interiores e não exteriores. Os fariseus não tentam mudar a raiz das coisas, mas apenas a folhagem, o que não produz nenhuma mudança real. A figueira infrutífera ilustra muito bem isso: Apenas folhas e não frutos. Por isso foi  amaldiçoada por Jesus – Mt 21:19.

A acusação é de violência, que não fica apenas na região dos símbolos, mas redunda em práticas assassinas. Por mais que se adornem túmulos e se caiem sepulcros, a morte estará presente no interior da estrutura, e a violência aparecerá, apesar das declarações de inocência.

A indignação vai ao paroxismo, os fariseus são chamados de cobras e filhos de cobras venenosas. A família é reprodutora da violência e os filhos dos assassinos vão continuar sendo assassinos de profetas. O preconceito, a discriminação, a religião do elitismo e do poder político e econômico, são aprendidos dentro de casa.

O veredito final
Mt 23,37-39

O final do discurso é de uma beleza pungente. Há uma repentina quebra de tonalidade, depois da explosão irada. Lamento doloso de fêmea que deseja proteger filhotes que não querem ser protegidos. A indignação irada é o outro lado da misericórdia frustrada.

Talvez, toda crítica deva vir sempre de uma atitude de compaixão, mesmo que a forma seja irada. Atos de amor nem sempre são doces. As atitudes e seus objetivos não podem ser medidos pela veemência das palavras, pelas explosões de ira, ou pela contundência da crítica.

O texto passa da ira à ternura, mas está todo envolto em intensidade e paixão. Talvez a vida não deva exigir de nós menos do que isso: essa mistura de crítica contundente e de ternura apaixonada. Che Guevara aprendeu esta lição quando disse “Há de se endurecer, mas sem perder a ternura”.

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.