MAS LIVRA-NOS DO MAL

Sermões sobre o Pai Nosso(9):

MAS LIVRA-NOS DO MAL  – Mateus 6:13b

Pastor Julio Borges Filho

            Disse no sermão anterior sobre “E não nos deixes cair em tentação” que esta sexta petição exige de nós o espírito de humildade já que o mal no mundo é uma realidade terrível. Somos bombardeados diariamente por notícias ruins e barbáries humanas terríveis, terrorismo, guerras, mortes violentas. Parece que o Apóstolo João tinha razão a escrever: “O mundo jaz no Maligno”; e também Jesus quanto chamou Satanás de príncipe deste mundo. Mal e maligno são inseparáveis. Por isso devemos orar sempre “Mas livra-nos do mal.”

Quando Jesus foi preso reconheceu a força do mal no mundo quando afirmou: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas”. Todavia não devemos nos desesperar. Tenho uma teoria interessante e otimista sobre o bem e o mal. Quando Lucifer se rebelou levou consigo um terço das hostes celestes, mas dois terços ficaram fiéis a Deus e Pai. Acho que é exatamente esta proporção de bem e mal no mundo: um terço de mal e dois terços de bem. Quando o mal triunfa, aí vem a destruição, o que aconteceu com Sodoma e Gomorra, com os  Impérios Assírios e Babilônico, etc. O mal, porém, tem maior atração na mídia e dá a impressão que prevalece. Engano. Portanto, sem desespero e em oração, aproximemo-nos com humildade da segunda parte da sexta petição do Pai Nosso sabendo que nossa oração foi precedida pela oração sacerdotal de Jesus em João 17:15: “Não Te peço que os tires do mundo, e sim que os livres do mal”. 

O MAL NO MUNDO 

Sua origem 

 

A rebelião de Lucifer – Isaias 14:14 – cuja essência foi o de querer ser semelhante ao Altíssimo.

O coração humano – Dele saem as fontes de vida como diz o provérbio bíblico (4:23): “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda porque dele procedem as fontes da vida”, e também toda sorte de males que contaminam o homem como afirmou Jesus. Nosso conflito interior é bem expresso pelo Apóstolo Paulo em Romanos 7:15-25. Ele queria fazer o bem e terminava por fazer o mal que não queria. A complexidade do mal: Começa no coração do homem e atinge tudo o que o homem toca e constrói, inclusive suas instituições e seus sistemas de poder. Uma pequena deformação transforma uma coisa boa em ruim. Jesus advertiu que não devemos tentar separar o joio do trigo para não jogar fora junto com o joio o trigo. Isso acontecerá na colheita final. As tentativas históricas da igreja para expurgar o joio, como a inquisição, foi um desastre fazendo um mal maior.

O mal sistêmico
 

            Preocupado com o mal no mundo, o Apóstolo Paulo, como base na doutrina do anjo da guarda do AT, elaborou a doutrina dos principados e potestades – Efésios 5:12. Daniel 10 nos conta que, preocupado com o futuro de Israel e do mundo, Daniel fez oração e jejum por três semanas às margens do Rio Tigre na Babilônia. Deus ouviu sua oração no primeiro dia e enviou um anjo com a resposta, porém o anjo demorou três semanas para conseguir entregar a mensagem porque recebeu a oposição do Príncipe da Pérsia e só conseguiu derrotá-lo com a ajuda do Arcanjo Miguel, Príncipe ou protetor de Israel. Em outras palavras: países, cidades e instituições humanas são controladas por anjos e têm sua espiritualidade própria. A doutrina paulina nos diz que a nossa luta não contra a carne e o sangue (as pessoas), mas contra os principados e potestades e as forças espirituais da maldade nas regiões celestes. Todo poder saiu das mãos de Deus. Satanás tem poder porque o usurpou; o homem tem poder porque Deus o deu. Quando o poder se sistematiza, torna-se uma força que pode ser usada para o bem ou para o mal. O poder é uma força neutra como o fogo. Usando para servir o bem comum é benéfico, mas usado para dominar e para se servir gera opressão e corrupção.

O Senhor Jesus enfrentou o mal individual e sistêmico. Albert Nolan no seu pequeno grande livro “Jesus antes do cristianismo”, detalha isso recuperando o contexto bíblico da palestina na época. Ele divide tudo em quatro questões fundamentais: Solidariedade, posição, posse e poder.

Questões:                     O projeto maligno           x         O projeto de Jesus

Solidariedade             Paroquialismo                                 Abertura

Posição                        Orgulho                                           Humildade

Posse                           Acumular                                          Repartir

Poder                          Dominar/benefício próprio           Servir

 

MAS LIVRA-NOS DO MAL

 

É oração de livramento porque o mal nos cerca.

 

            Paulo tem sua versão dessa oração em 2 Timóteo 4:18: “O Senhor me livrará de toda obra maligna e me levará a salvo para o o seu reino celestial”. Não precisamos ser obcecados pelo mal como muitos, mas devemos orar por livramento porque o mal nos cerca.

 

É oração de humildade por que “a nossa força nada faz…”.

 

            Assim cantou Lutero em seu Castelo Forte. A presença de Jesus é assegurada. Por isso conclui o estrofe do famoso hino assim: “A nossa força nada faz, estamos, sim, perdidos,/mas nosso Deus socorro traz e somos protegidos./ Defende-nos Jesus o que venceu na cruz/ Senhor dos altos céus/ e sendo o próprio Deus, triunfa na batalha”. Jesus nos envia ao mundo como ovelhas no meio de lobos numa missão suicida se o pastor não fosse conosco. Por isso exulta o grande reformador: “Se nos quisessem devorar demônios não contados/ não nos podiam assustar nem somos devorados./ O grande acusador dos servos do Senhor/ já condenado está, vencido cairá/ com uma só palavra.”

 A NOSSA LUTA
 

            Na luta contra o pecado sistêmico ou o mal na cultura, devemos estar preparados. Eis algumas armas ou estratégias essenciais:

A Armadura de Deus – Efésios 5:10-18 – O texto começa com o “revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmas contras as astutas ciladas do diabo”. São as armas de um soldado romano só que em termos espirituais. A primeira peça é o cinto da verdade que, cingindo nossos lombos, nos dar firmeza e segurança. Sem o cinto as calças caem e somos envergonhados. Precisamos ser verdadeiros, íntegros, e com a mensagem da verdade. A segunda peça é os sapatos do Evangelho da paz para sermos mensageiros de boas novas com pés preciosos. Depois vem o escudo da fé protegendo o tórax e o coração. E as funções da fé são vê o invisível, tolerar o intolerável e vencer o invencível. A quarta peça da armadura de Deus é o capacete da salvação protegendo a cabeça e a mente. A mente é um touro bravo que precisa ser domado. Daí o imperativo paulino: “transformai-vos pela renovação de vossa mente…” – Rm 12:1-3 –  para termos percepção da agradável, boa e perfeita vontade de Deus. A mente só pode ser controlada com o mergulho para dentro de nós mesmo (meditação) com a ajuda do Espírito Santo. Os ataques malignos são assaltos mentais e espirituais. E, por último, vem a Espada do Espírito que é a Palavra de Deus. Como podemos ir para o campo de batalha sem a espada mais poderosa do mundo, a Palavra de Deus? Foi com ela que do caos Deus criou todas as coisas, e foi com Ela que fomos salvos. Daí ser essencial a memorização de textos bíblicos. Jesus rebateu Satanás com versículos do livro de Deuteronômio. Paulo acrescenta mais uma arma poderosa que a oração e súplica por todos os santos.

Os ideais do Reino de Deus – Justiça, paz e alegria (Rm 16:17), como expressos no exemplo da Jesus Cristo, nos dão uma base ética na luta. Entrar na luta contra os principados e potestades sem uma ética cristã encarna é loucura. Está a bancada evangélica no Congresso como ilustração do despreparo.

A comunhão cristã centrada na Ceia do Senhor é fundamental porque só na cruz de Cristo podemos derrotar o mal e humilhá-lo como Jesus o fez na força do amor. Daí celebrarmos sempre a morte de Jesus Cristo para nunca esquecermos de trilhar o caminho do amor e do serviço desinteressado.

Um estilo de vida simples cai bem no cristão. Nada de arrogância e esnobismo. Temos de economizar e combater o desperdício a fim de ajudarmos os pobres e necessitados que atravessam nosso caminho.

E, finalmente, a opção preferencial pelos pobres e excluídos. E esta não é uma tese da teologia da libertação, mas da fé cristã. Jesus nasceu numa invasão, seus primeiros adoradores foram os analfabetos pastores de Belém para quem os anjos cantaram, ainda bebê teve de fugir com seus pais para o Egito fugindo de um rei tirano, e começa seu ministério com o Manifesto de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” – Lucas 4:18-19. Investiu quase todo o seu ministério na Galiléia, a região da sombra da morte, onde vivia o povo síntese do mundo, e toda vez que subiu à Judéia era para o conflito com a elite judaica representada pelos fariseus, saduceus, escribas e sacerdotes. Quando ele disse “vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos…”se referia ao povo oprimido pela religião de sua época que exercia um pesado jugo. 

            Joaquim Jeremias, um dos mais respeitados teólogos do NT, disse que se quiséssemos resumir a oração do Pai Nosso, poderíamos dizer que é “a escatologia em realização”. Assim quando oramos o Pai Nosso já antecipamos as últimas coisas no tempo presente ao reconhecermos a Deus como O Pai de todos, sua santidade invadindo nossa vida, seu reino sendo estabelecido e sua vontade sendo cumprida, o pão completo saciando a todos, o perdão sendo exercido, as tentações sendo vencidas em Jesus Cristo, e o mal sendo derrotado.

Quando oramos “mas livra-nos do mal” somos desafiados a vivermos Miquéias 6:8: “E mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”.

Quando oramos “Livra-nos do mal”, reafirmamos o compromisso com o Reino do Bem e a disposição de jamais nos conformarmos com a forma do mundo.

E, finalmente, quando dizemos “mas livra-nos do mal” sonhamos com um mundo sem o mal e a presença do maligno tentador. É a fraternidade humana, verdadeiramente humana, em Cristo. Só quando trocarmos de mundos experimentaremos a realidade dessa petição. Enquanto estivermos aqui temos de orar sempre “Mas livra-nos do mal”.

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.