“PERDOA AS NOSSAS DÍVIDAS…”

Sermão“PERDOA AS NOSSAS DÍVIDAS…”    – Mateus 6:12,14,15

 Pastor Julio Borges Filho

                                             

Vimos até agora quatro atitudes corretas em oração: Atitude de filiação… Atitude de reverência… Atitude de submissão… e Atitude de dependência… Agora chegou a vez da atitude que Jesus enfatizou nos vrs. 14 e 15 após o Pai Nosso: A Atitude de perdão…

Por que Jesus enfatizou o perdão? Acho que por três razões: 1) Somos pecadores e, como tais, endividados; 2) Sem o perdão é impossível viver neste mundo; e 3) Deus se agrada quando nos arrependemos, pedimos perdão e estamos prontos para perdoar também. É como se cantássemos aquele hino cujo refrão diz “Em minha vida vem criar, Senhor, um coração igual ao Teu…”Aproximemos com humildade das palavras de Nosso Senhor: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como também nós temos perdoado aos nossos devedores”. Comamos, como se come uma saborosa refeição, as duas frases.

                                       “PERDOA AS NOSSAS DÍVIDAS…” 

            Somos seres eternamente endividados. Não podemos pagar nossas dívidas.  Temos, portanto, um problema que não podemos resolver, o problema do pecado. Todos os seres humanos estão debaixo deste veredicto: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” – Rm 3:23. Um só pecado e já não merecemos o céu. Nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram expulsos do Paraíso por causa de um só pecado. No Salmo 51 Davi clama: “Contra Ti, contra Ti somente peguei e fiz o que errado perante os Teus olhos”.

Palavras do NT para pecado: 1ª) Hamartia é o substantivo mais comum traduzido por pecado. É usado 60 vezes nas cartas de Paulo = Fracasso, errar o alvo, é um poder que prende cada homem (sob pecado), é universal, e o seu salário é a morte. 2ª) Parabasis = a dimensão ética: certo ou errado, honestidade e desonestidade (inclinação para o mal). 3ª) Paraptôma = Impulso maléfico. 4ª) Anomia = Conhece o certo e pratica o errado, transgressão da lei, satisfação dos desejos acima do seu dever para com os outros e com Deus. Anomia provém basicamente do desejo de instalar o “eu” no centro da vida no lugar de Deus. É idolatria de si mesmo, orgulho, vaidade. 5ª) Ophellema, usada no Pai Nosso e bem traduzida como dívidas.

As dívidas nos tiram a paz, roubam energias e nossa humanidade. Quando era pastor da Terceira Igreja Batista de Brasília, num domingo, lá pelas duas horas da madrugada, fui acordado com o telefone tocando. Esses telefonemas de madrugada me assustam porque, quase sempre, é desastre ou morte. Um casal do Cruzeiro, minhas ovelhas. A esposa me liga e fala que seu marido não dorme a uma semana porque foi avalista de uma pessoa que não pagou a dívida e agora ele é cobrado. Disse ela: “Telefonei pro pastor para o senhor fazer uma oração por ele.” Antes de orar citei alguns versículos de conforto e ânimo e orei por um minuto. Terminada a oração, tentei falar com ele, mas ninguém respondia. Na manhã de domingo, como sempre, chegava meia hora antes dos trabalhos dominicais para receber as ovelhas. Quando cheguei lá já estava o casal alegre e me saudando de longo: “Pastor, mas que oração poderosa. E o senhor estava orando ainda e ele já estava dormindo no sofá.” “Ah, minha irmã, não espalhe isso por aí porque senão quem não vai dormir sou eu. Poderia ser a oração de outra pessoa e o efeito seria o mesmo”.  Quando oramos “Perdoa as nossas dívidas”, reconhecemos que somos pecadores eternamente endividados perante Deus e perante o próximo. O perdão de Deus jorra da cruz de Jesus Cristo porque Ele é o novo Adão, o cabeça de uma nova humanidade redimida – 1 Jo 1:7-9. O perdão moral só Deus em Cristo pode fazê-lo limpando nossa memória.

            O Pai Celeste se agrada quando pedimos perdão com arrependimento e quando passamos o perdão adiante.

“Há júbilo diante dos anjos de Deus quando um pecador se arrepende” – Lc 15:10.
 

     “…ASSIM COMO TAMBÉM NÓS TEMOS PERDOADO AOS NOSSOS DEVEDORES”
 

O perdão é ilimitado

            A pergunta de Pedro (Mt 18:21): “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” Duas razões para a pergunta de Pedro: 1) A bondade de Jesus, e 2) colocar um limite ao perdão para saber a hora do sarrafo. A resposta de Jesus veio de duas formas: 1) “Não te digo até sete vezes, mas setenta vezes sete” – Mt. 18:22 (490?). Em outras palavras: Não há limites para o amor e para o perdão.  2) A Parábola do Credor Incompassivo.

Somos chamados a sermos um eco do amor de Deus e não da maldade humana. A parábola do credor incompassivo (Mt 18:23-25) – 1º devedor: 60 milhões de denários (dez mil talentos) = RS 6 bilhões de reais, quantia exagerada de propósito (impagável). Diante de ter de vender tudo o que tinha e sua esposa e filhos como escravos, ele, num gesto dramático, suplica ao rei: “Sê paciente comigo e te pagarei”. E o rei lhe perdoou toda a dívida. O 2º devedor de dez mil reais (cem denários). E agora o primeiro devedor é credor impiedoso incapaz de perdoar. O outro ajoelha-se perante ele e suplica: “Sê paciente comigo e tudo te pagarei”. Mas ele lança o seu companheiro na prisão até que ele pagasse toda a dívida. Seus companheiros sabendo disso contam ao rei o acontecido. O rei manda chamar o credor incompassivo: “Servo malvado, não devias tu perdoar o teu conservo como eu te perdoai? E ordenou que ele fosse entregue aos verdugos até que lhe pagasse toda a dívida. O perdão divino é como uma corrida de estafeta: tem de ser passado adiante. “Perdoai como Deus vos perdoou”. Sem o perdão aos que nos devem, perdemos o perdão porque não o usamos passando adiante. E aí seremos entregues aos verdugos (coração duro, desumanidade, ingratidão, ódio, remorso, culpa, etc). Se roubamos o Espírito de Deus pede restituição. O exemplo de Zaqueu, o publicano, nos mostra isso. Três coisas são essenciais ao perdão: 1) Nós devemos aprender a entender quando somos ofendidos, porque há circunstâncias que o ofensor experimenta que não conhecemos; 2) nós precisamos aprender a esquecer as ofensas quando perdoamos realmente; e 3) nós precisamos aprender a amar

Somos chamados a amar – A mulher pecadora na casa de Simão, o fariseu – Lucas 7:36-50 – ilustra muito bem isso. É uma das páginas mais lindas do Evangelho. Jesus é convidado para um jantar na casa de Simão, o fariseu, e uma mulher deita-se a seus pés chorando, enxugando seus pés com seus longos cabelos e perfumando-os com um caro perfume. Simão murmura consigo mesmo: “Se esse fosse profeta saberia que esta mulher é mulher pecadora”. Então Jesus lhe conta uma história de um homem que tinha dois outros que lhe devia: um, uma grande quantia, e o outro uma quantia pequena, e ambos não tenho como pagar foram perdoados. Pergunta Jesus: “Quem amará mais o Senhor que perdoou as dívidas”. Simão reponde: “Suponho que o que mais foi perdoado”. E aí Jesus conclui: “Respondeste bem. Quando cheguei em sua casa não me lavaste os pés, e este mulher os lava com suas lágrimas. Não me deste o ósculo, mas ela me beija os pés e os perfuma. Por isso eu digo: Perdoados lhe são os seus muitos pecados porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama”. Porque somos grandes devedores perdoados, devemos amar. Uma regra infalível para casais: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Diariamente temos de pedir perdão para que pequenas mágoas não sejam acumuladas. Gandhi disse: “Não deixes que morra o sol sem que tenha morrido os teus rancores”. 

Quando oramos “Perdoa as nossas dívidas…” reconhecemos que somo pecadores e como tais cometemos erros, mas queremos que Deus conserte nossas vidas, e isso é uma capacidade humana e não demoníaca. Não há ninguém mundo tão bom que não necessite do perdão divino, nem ninguém tão mau que não seja alcançado por ele. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais temos consciência de nossas dívidas. Dois exemplos ilustram isso: O primeiro é o do Apóstolo Paulo que escrever: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo veio ao mundo salvar pecadores dos quais eu sou o principal. O segundo, o de Francisco de Assis que foi o homem que mais se aproximou de Jesus na história da igreja. Ele disse: “No mundo inteiro não há um mais vil pecador do que eu.”

Quando pedidos “Pai, perdoa nossas dívidas…” olhamos para nós mesmo, em autoanálise, para descobrir nossas mágoas, e estar disposto a fazer do perdão algo essencial à nossa vida comum. Somos desafiados a amar até os nossos inimigos. IL: a mulher cristã que quer divorciar de seu marido aconselhando com seu pastor. Perdoar é um dever cristão e humano que nos traz alegrias.

Quando oramos “Pai, perdoa as nossas dívidas…” desejamos ser um eco do amor de Deus no mundo cheio de maldades e traições. Uma grande amiga minha, pastora da Igreja Batista Independente, contou-me que foi estuprada pelo pai quando tinha doze anos. Cresceu odiando o pai, mas guardou suas mágoas em silêncio. Aos 18 anos se converteu a Cristo e perdoou o pai. Quando ele morreu, ela me convidou para o sepultamento e , quando me viu, abraçou-me chorando e eu murmurei comigo mesmo: “Realmente ela perdoou o pai”. Depois do Pai nosso, a maior oração da igreja é A ORAÇÃO DE FRANCISCO DE ASSIS. Oremos juntos:
“Senhor, faze de mim um instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.”

Júlio Borges de Macedo Filho

Sobre Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.