A igreja e sua responsabilidade social

Por Nilson Pereira de Moura

Bacharel em Teologia, pastor da Igreja Cristã de Brasília e servidor público federal.

 

Começo a minha exposição fazendo algumas considerações sobre a missão da igreja. A igreja como corpo de Jesus Cristo tem como missão básica três linhas de atuação com relação ao seu propósito: (a) em relação a Deus, (b) em relação aos cristãos e (c) em relação ao mundo:

 

  1. Adoração a Deus

 

A oração do Pai nosso expressa bem o conceito que temos de Deus e por isso precisamos adorá-lo. Vejamos:

 

“Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu Nome. Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como nos céus. Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia. Perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. E não dos deixes cair em tentação, mas livra-nos do maligno, porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém”. (Mt 6:9b-13)

 

“Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração”. (Cl 3.16).

 

“a fim de que nós, os que primeiro esperamos em Cristo, sejamos para o louvor da sua glória”. (Ef 1.12).

 

“aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor. Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem, mas deixem-se encher pelo Espírito, falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor”. (Ef 5.16-19).

 

Adoração verdadeira há de estabelecer a soberania de Deus sobre os céus, a terra e universo como até mesmo anjos nos céus proclamam uns aos outros. Podemos então concordar com Wayne Grudem que adoração é uma: “atitude de glorificar a Deus em sua presença e com nossa voz e com nosso coração”.

 

“Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória”

 

b) Edificação da igreja

 

“Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, para que apresentemos todo homem perfeito (maduro) em Cristo”. (Cl 1.28).

 

“com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo”. (Ef 4.12-13).

 

c) Evangelização e misericórdia

 

“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28.19-20)

 

“Amem, porém, os seus inimigos, façam-lhes o bem e emprestem a eles, sem esperar receber nada de volta. Então, a recompensa que terão será grande e vocês serão filhos do Altíssimo, porque ele é bondoso para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso”. (Luc 6.35-36).

 

A igreja como corpo de Cristo deverá manter o equilíbrio entre os três propósitos fundamentais para igreja. Adoração, edificação e evangelização com misericórdia, são da mesma importância, pois é um projeto de Deus. Por isso Deus colocou na igreja a diversidade de dons conforme está escrito em 1 Coríntios 12:12 – 30. Destaco os versos 27 a 30:

 

“ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo. Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dom de prestar ajuda, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas “idiomas”. São todos apóstolos? São todos profetas? São todos mestres? Têm todos os dons de curar? Falam todos em línguas “idiomas” Todos interpretam? Entretanto, busquem com dedicação os melhores dons”.

 

A verdadeira igreja tem compreensão clara de sua missão. É necessário então como agente da missão sinalizar a presença de Jesus Cristo entre o povo, por exemplo, quando João Batista manda perguntar se Jesus é Jesus mesmo “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar outro? (v19)”. Ele manda uma resposta ao perguntador apontando os sinais do Reino:

 

“Naquele momento Jesus curou muitos que tinham males, doenças graves e espíritos malignos, e concedeu visão a muitos que eram cegos. Então ele respondeu aos mensageiros: Voltem e anunciem a João o que vocês viram e ouviram:

 

– os cegos vêem,

– os aleijados andam,

– os leprosos são purificados,

– os surdos ouvem,

– os mortos são ressuscitados

– e as boas novas são pregadas aos pobres;

– e feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa”. (Lucas 7:18-23).

 

É o cumprimento do programa de governo de Jesus Cristo anunciado em Lucas 4:18:

 

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do Senhor”.

 

  1. Pregar boas novas aos pobres – Esperança de mudanças (1);
  2. Proclamar liberdade aos presos – Esperança de Justiça penal (2);
  3. Recuperação da vista aos cegos – Esperança Saúde pública (3);
  4. Libertar os oprimidos – Esperança de Justiça social (2)
  5. Proclamar o ano da graça do Senhor – Esperança de Perdão e anistia. (1)

 

Feitas as considerações podemos entender que a igreja enquanto entidade humana e divina deve exercer sua missão fazendo ação social, assistência social e quando possível assistencialismo, este último, não pode ser o carro chefe e nem ser confundido com ação social. É preciso defini-los bem para que as ações sejam eficientes e eficazes.

 

  1. Ação Social são ações construtoras de pontes para a transformação do sujeito e da sua própria história. São ações concretas de formação para que a pessoa e a sociedade sejam transformadas. Na ação social você não dá o peixe, você ensina a pescar como o próprio Jesus Cristo fez aos seus discípulos. “Tendo acabado de falar, disse a Simão: Vá para onde as águas que são mais fundas e a todos: Lancem as redes para a pesca”. (Lc 5:4);

 

 

 

  1. Assistência Social são ações continuadas que serve de apoio e pontos de contato para apontar o caminho a ser seguido, serve também mostrar sinais visíveis de que o Reino de Deus está presente e não gerar dependência em Atos 4:34 está dito:

 

“Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiros da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um”.

 

  1. Assistencialismo são ações emergenciais que não trazem necessariamente transformação alguma – o assistencialismo pode e quase sempre gera uma dependência do assistido. Por exemplo, cesta básica, corte de cabelo, banho, ajuda financeira que são louváveis, embora não gere transformação do sujeito e da sua história. Na carta de Tiago o irmão do Senhor capítulo 2:15-17 diz:

 

“Se um irmão ou irmã estiver necessitado de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”.

 

Conclusão

 

Creio que para existir um programa que traz dignidade ao ser humano serão necessárias ações concretas de transformação e que os levem à adoração a Deus, à edificação da igreja, da evangelização e equilíbrio entre os propósitos. Ou seja, uma educação e ações profissionalizantes que insira a pessoa na sociedade de forma digna, programa que pode/deve ter em seu bojo, a ação e a assistência social, e quando possível o assistencialismo emergencial, que sirva apenas como ponto de contato entre a missão da igreja e a pessoa portadora de necessidades emergenciais. Boas novas aos pobres. Liberdade aos presos e recuperação de vista aos cegos, libertação dos oprimidos e proclamação do ano aceitável do Senhor (perdão e anistia). Era de fato, anistia geral e irrestrita da terra, das dívidas, da escravidão física, social, emocional, psicológica e a mais importante de todas as liberdades. A liberdade espiritual. A libertação da alma e da vida para sempre. É uma proposta de vida abundante e eterna. Uma verdadeira ação social trará ações transformadoras na recuperação integral do ser humano em sua vida social e espiritual “eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente” (Jo 10:10b).

 

Nilson Pereira de Moura

Sobre Nilson Pereira de Moura

Nilson Pereira de Moura nasceu em 1957 na cidade de Posse-GO. É casado há 25 anos e pai de três filhos. É bacharel em Teologia, com concentração em Ministério Pastoral, pela Faculdade Teológica Batista de Brasília – FTBB (1999). Ordenado ao Ministério Pastoral pela Igreja Cristã de Brasília, em 09 de dezembro de 2001, em Concílio presidido pelo Pastor Júlio Borges de Macedo Filho. Foi posteriormente aprovado em Concílio Especial de reconhecimento de exame realizado pela ICB pela Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, em 22 de setembro de 2009. Pastoreou como membro do Colegiado de Pastores na Igreja Batista do Jardim Paquetá, na cidade de Planaltina de Goiás, no período de março de 2008 até 13 de novembro de 2010, período que julga de extrema relevância para o seu Ministério Pastoral. Após essa experiência gratificante retornou à Primeira Igreja Batista de Sobradinho-DF (PIBS), onde ocorreu sua conversão em dezembro de 1980 e batismo em 23 de agosto de 1981. Permaneceu como pastor membro na PIBS de 14 de novembro de 2010 até 19 de julho de 2011, quando resolveu retornar à equipe pastoral da Igreja Cristã de Brasília em 24 de julho de 2011, onde foi recebido com grande alegria e unanimidade. É muito grato a Deus pela experiência adquirida na caminhada cristã. Em 18 de agosto de 2013 foi recebido como membro efetivo na Primeira Igreja Batista de Sobradinho – PIBS/DF. No dia 30 de novembro de 2014 retornou à Equipe Pastoral da ICB de copastor. Em 19 de abril de 2015 por aclamação, retornou a PIBS, na qualidade de membro efetivo. Servidor público federal, aposentado do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, onde ingressou em 03 de janeiro de 1979. Atuou na Área de Gestão de Pessoas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda-SPE/MF, e na Secretaria de Patrimônio da União do Ministério do Planejamento – SPU/MP, no assessoramento técnico da ASTEC, em gestão de Pessoas. Posteriormente, exerceu a função de parecerista na Secretaria de Recursos Humanos – SRH/MP, tendo encerrado a sua participação no MPR na Subsecretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão, onde exerceu os cargos de Assistente, Assessor Técnico e Chefe de Divisão por vários anos. Encerrou sua carreira no IPEA ocupando a atribuição de Auditor substituto, na Auditoria Interna do órgão. Em paralelo, exerceu o cargo de Diretor de Administração e Finanças da Associação dos Funcionários do IPEA-AFIPEA, cargo pelo qual foi eleito para o Biênio 2011/12, acumulando também o cargo de Secretário-Executivo da AFIPEA-SINDICAL. Cargos exercidos até 30 de maio de 2013.