REFLEXÃO ICB (1): SOBRE AS ELEIÇÕES NO BRASIL

Com a proximidade das eleições gerais em nosso país e tendo consciência da importância e das consequências que isso terá em nossas vidas e na vida de toda a nação, a Igreja Cristã de Brasília gostaria de se posicionar e colocar para reflexão e discussão da comunidade evangélica e para a sociedade em geral, alguns pontos que considera importantes sobre o assunto.

1 – Pressupostos básicos para a reflexão

a) Somos cristãos

Essa afirmação, apesar de, em nossa sociedade onde a grande maioria se identifica como cristão,   parecer simples e desnecessária, é  fundamental para o entendimento de nossa posição. Ao afirmarmos que somos cristãos não estamos apenas nos identificando com uma religião formal ou uma forma de culto, mas afirmando que os princípios e valores que norteiam nossas vidas e consequentemente nossas opções políticas são aqueles pregados por Jesus Cristo. Nossa fidelidade aos princípios pregados por Cristo está acima de qualquer fidelidade partidária, estratégia, oportunidade ou até possibilidades de vitórias.

b) Nosso ideal utópico é o Reino de Deus

Nosso ideal de sociedade é o que o evangelho identifica como o Reino de Deus, proposto e prometido por Jesus Cristo e que se concretizará plenamente apenas na consumação da História. Apesar de futuro e utópico, somos desafiados pelo evangelho a trazermos para a história e o tempo presente os valores desse Reino. Isso deve justificar e inspirar a atuação de todos os cristãos, seja na esfera espiritual, social ou política. O maior valor do Reino é o amor, exemplificado na prática pelo próprio Jesus Cristo.

c) O mundo jaz no maligno

A afirmação do apóstolo João, utilizada muitas vezes, erroneamente e num passado próximo, para justificar a alienação dos cristãos em relação à vida cotidiana e à responsabilidade de participarmos dela, hoje, ou parece que é menosprezada pelos que se envolveram nos negócios da “vida secular”, ou continua sendo utilizada equivocadamente por aqueles que advogam o distanciamento dos cristãos “do mundo”.

A afirmação de João é um alerta, de que o cristão deve se preparar  para a tensão permanente que irá viver, em qualquer área da vida, se quiser antecipar e vivenciar os valores do Reino agora. E também deixa claro que a proposta de vida em curso no mundo, com todas as suas facetas e nuances é incompatível com os valores do Reino. Objetivos, princípios e métodos são inconciliáveis com  o que foi proposto por Cristo.

e) Os cristãos devem ser o sal da terra e a luz do mundo

Essas duas figuras usadas por Cristo significam que os cristãos têm a função de se misturar ao mundo e dar-lhe sabor, sentido, como faz o sal na comida. Ou trazer ao alcance da visão as verdades que precisam ser conhecidas, função da luz perante a escuridão.

Por mais paradoxal que pareça, os dois últimos itens expostos são na verdade complementares.

Os cristãos devem participar da vida e das decisões sobre a sociedade, principalmente zelando pelos direitos e bem estar dos mais pobres e excluídos. Porém devem participar como profetas, denunciando as estruturas e políticas perversas, que contrariam os valores do Reino de Deus.

O que temos visto atualmente, e que é bastante preocupante, é que muitos que se dizem cristãos, evangélicos, representantes de grupos religiosos ou igrejas, têm participado da política usando as mesmas regras, esquemas e valores que os demais participantes. Buscam obter ou garantir direitos e privilégios pessoais ou para seus grupos religiosos.  Isso é contrário ao Evangelho. Devemos atuar como representantes do Reino, denunciando as forças contrárias à justiça de Deus, propondo soluções para garantir os direitos dos pobres e desamparados pelas estruturas sociais estabelecidas. E isso, necessariamente, significa uma posição de confronto, de tensão. Participar, buscando estar bem ou obter o respeito e reconhecimento do poder vigente, é negar o evangelho e usá-lo apenas como desculpa.

Tendo esses princípios como pano de fundo,

2 – Exortamos o povo de Deus e a todos os que, sinceramente, buscam uma sociedade mais justa a

a) Refletirem profundamente sobre o modelo de sociedade que queremos e precisamos, e o caminho que precisamos trilhar até alcançá-lo, traduzirem isso em propostas práticas de ação política e social e identificar os candidatos que as abraçam;

b) Verificar a vida dos candidatos que disputam os nossos votos. Discursos bem articulados e coerentes com nossas expectativas são apenas retórica, se a vida de seus autores não corroboram, na prática, esses ideais. Suas vidas devem deixar bem claro que a atuação parlamentar é apenas uma continuidade de suas atuações em favor da comunidade. Candidatos que não têm histórico de envolvimento em qualquer tipo de ação em prol da comunidade devem, no mínimo, ser objetos de nossa desconfiança.

c) Confirmarem a honestidade do candidato.  Em uma situação ideal essa condição não deveria e nem precisaria ser colocada. Ser honesto deveria ser uma característica básica e natural em qualquer pessoa, principalmente naquelas que almejam cargos de representação, como os políticos. E alguém vai fazer as coisas em meu nome, tem ser fazê-lo da forma mais honesta possível. Porém, infelizmente, na situação de degradação moral que vivemos, principalmente da classe política, essa condição dever ser verificada e determinante em nossa escolha.

d) Exigirem dos candidatos um compromisso com a transparência em seus mandatos. Que todas as ações, propostas, projetos, gastos, emendas, etc. sejam colocadas à disposição do conhecimento do todos nas redes sociais.

e) Declararem explicitamente que irão desenvolver um mandato democrático, significando isso a garantia da participação popular nas decisões e elaboração de projetos, através de consultas aos movimentos populares, entidades representativas, audiências públicas e toda maneira que proporcione ao povo o conhecimento e participação nas decisões de seu mandato.

Claro está para nós, cristãos, que nenhum esforço humano trará a plenitude do Reino de Deus para nossa História. Isso só acontecerá na plenitude dos tempos, com a volta em glória de Jesus Cristo que assumirá o trono e implantará seu reino eterno de justiça. Mas também temos a consciência que é nosso dever antecipar no que for possível o Reino, garantindo nas relações pessoais, sociais, políticas e demais esferas, a vivência dos valores do Reino, como justiça, amor, compaixão, solidariedade e igualdade.

Como a maneira que temos hoje para organizar nossa sociedade e garantir que esses valores se façam presentes é a democracia, e ela é exercida através de pessoas que nos representam e são escolhidas por nós, é nesse momento, da escolha pelo voto, que podemos impor nossa vontade e valores. Que participemos da eleições, conscientes da responsabilidade que o próprio Evangelho coloca em nossos ombros nesse momento, e que sejamos iluminados pelo Espírito Santo, único que tem o poder de convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo.

 

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