Sermões

Deus Mãe

Sermão: D E U S M Ã E  Gênesis 1:1 e 2, 26-28

Pastor Julio Borges Filho

Introdução

– A oração do bispo Almir dos Santos: “Nosso Pai e nossa Mãe…” O livro “A Cabana” revoluciona: Deus Pai e Deus Espírito Santos são duas mulheres.

– Um Deus masculino: Pai, Filho e Espírito Santo. O Espírito é feminino/mãe – Ruá (Hebráico). Quanto os setentas sábios de Alexandria traduziram o VT para o grego, colocaram o Espírito como neutro – pneuma. E quando Jerônimo traduziu a septuaginta para o latim, colocou-O masculino – Spiritus. Daí pra frente a cultura patriarcal construiu toda uma teologia tirando da tradição cristã a dimensão feminina de Deus presente em todas as culturas religiosas. Em todas as culturas há Mães que representam a Energia de Deus Mãe: Ísis, Kwan Yin, Kali Ma, Shakti, Deusa, Yemanjá, Búfalo Branco, Madonas Negras, Mãe Maria e em todas elas a energia da Mãe foi reconhecida… até chegar um determinado período em que essa Energia foi “abafada” e era até mesmo perigoso falar dela, com tantas fogueiras acesas por ai, o que pode ter ocasionado inclusive um registro em nós de “perigo”. Mas este período se finda… Podemos novamente falar de Deus Mãe sem receio. E podemos interagir com Ela! Podemos renovar esta conexão.

– Agora, em pleno advento da revolução feminina, recuperar a dimensão feminina de Deus, é fundamental para nossa cura psíquica. Todos os filhos precisam de pai e de mãe para viver saudáveis neste mundo.

  1. Imagem e semelhança da família divina
  • A Trindade Santa determina nossa identidade – Karl Bart já enfatizava isso: Porque Deus é Pai é que há pais, porque Ele é mãe é que há mães, e porque Ele é Filho é que há filhos. Nascemos da pluralidade de Deus. Somos imagem da Trindade Santa e ao o contrário o que seria idolatria: Deus feito à nossa imagem.
  • Ação criativa e geradora do Espírito Santo – “…e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas”. “Envias Teu Espírito e eles são criados”. Eis uma pequena história da criação: “Quando Deus Pai, a FONTE, “resolveu” criar o Universo, desejou que isso fosse feito. De Si emanou o início, o princípio, a vontade, a ordem. Para que houvesse a criação, além do desejo, era preciso a manifestação a concretização. Deus Mãe então “gerou”, manifestou, trouxe à forma e concretizou. Deus Mãe é o Grande Útero Cósmico, onde tudo é gerado e também manifestado. Ela não só gera, manifesta, mas também concretiza. Nela. A Energia de Deus Mãe nos gera, nos abarca, nos mantém.” É Espírito Santo que gera no ventre de Maria o Filho de Deus. É Ele que gera a comunidade cristã/Igreja em Jerusalém no Pentecostes. E é Ele quem gera Cristo em nós e faz-nos novas criaturas.
  • Deus se expressa em linguagem materna – O Pai: “Pode a mãe se esquecer do filho que ainda mama? Mas ainda que ele se esquecesse dele, eu não me esqueceria de ti” – Isaias. O Filho: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste” – Lucas.
  • Deus mãe: satisfaz nossas mais profundas necessidades
  • Gerador da vida – Na criação do universo, na criação das espécies, no nascimento de Jesus Cristo, na transformação de vidas (novo nascimento), no nascimento da igreja, na evangelização. Meus pais foram decisivos para minha vida: meu pai apontou o rumo, mas foi minha mãe quem adubou o terreno.
  • Consolador – O “Outro Consolador” prometido por Jesus é a dimensão materna de Deus, o Espírito Santo, a Brisa… A mãe é uma advogada que se agarra aos filhos. Meu pai contava que meu irmão mais velho, ainda pequenino, entrou um curral cheio de vacas, e uma vaca brava se arremessou contra ele, mas minha mãe, grávida de meu segundo irmão, correu e agarrou o filho e a vaca, diante de tanta bravura, desistiu do arremesso. Provavelmente reconheceu, como mãe-animal, o pode da mãe-humana. Deus mãe é assim: nunca desiste de nós…
  • Intercessor – Paulo afirmou, escrevendo aos romanos, que o “Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis…” Os gemidos do Espírito, o Deus mãe, tem o único objetivo: “Até Cristo se formar em nós”. Não seremos abortados.
  • Plenitude de vida – O imperativo paulino em Efésios, “Enchei-vos do Espírito…” é plenitude de vida. O mesmo poder que gerou Jesus em Maria e que O ressuscitou dos mortos, está à nossa disposição. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, afirmou Jesus. E disse mais: “Quem crê mim, como diz a escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.”
  • Alegria – Jesus alegrava-se no Espírito. Tal alegria é nossa. Uma alegria que o mundo não pode dar nem tirar.
  • Paz – trata-se da “paz de Cristo que excede todo entendimento…” “A minha paz vos dou…”, afirmou o Filho. É através do Espírito, o Deus Mãe, que esta paz é possível. “Ele estará para sempre convosco…”, orientou-nos o Senhor. Jesus poderia ser preso, torturado e morto, mas o Espírito estará conosco em qualquer lugar ou momento porque habita em nós. Somos templos do Espírito Santo.
  • Fé, esperança e amor – “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor”, afirmou o Apóstolo Paulo em 1 Co 13. Só teremos isso com o Deus em nós, a mãe de todos os filhos de Deus. Através dela, a Trindade Santa, estará presente em nossa vida: “Se alguém me ama, guardará minha palavra; e meu pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” – João 14:23.

Conclusão:

– Somos desafiados a viver as dimensões da Trindade Santa em nós: a verticalidade do Pai, a horizontalidade do Filho, e a profundidade do Espírito Santo. O Deus Pai (Deus acima de nós) enviou o Deus Filho (Deus conosco) para nos salvar, e o Filho nos enviou o Deus Mãe (Deus conosco) para nos santificar.

– Assim, como afirmou o Apóstolo do amor, “não nascemos do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” – João 1:13. Somos de fato filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo, gerados através do Deus mãe que o Espírito Santo. Um dia chegaremos à plenitude de Cristo e então “Deus será tudo em todos.” E o projeto original de Deus de nos criar conforme a Sua imagem e semelhança terá sua plenitude. Por enquanto basta-nos isso: Temos um Pai, uma Mãe e um Irmão Eternos. Nunca seremos órfãos.

 

Júlio Borges de Macedo Filho

PASTOR JULIO BORGES DE MACEDO FILHO Piauiense de Curimatá, 72 anos com 48 de pastorado, filho de Julio Borges de Macedo e Arquimínia Guerra de Macedo, é o sétimo filho de uma família de onze irmãos. Casou-se, há 48 anos no dia de sua ordenação ao ministério pastoral, com a professora Gislene Rodrigues Lemos de Macedo e tiveram quatro filhos: Juliene, Jusiel (falecido), Julinho e Julian. Agora Deus lhe deu a primeira neta chamada Sarah, de apenas 8 anos. Concluiu o curso de Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, em Recife. Formou-se em 1969 e foi ordenado ao ministério pastoral no dia 22 de fevereiro do mesmo ano. Pastoreou as seguintes igrejas: Igreja Batista do Rio Largo – AL (1969 a 1972), Primeira Igreja Evangélica Batista de Teresina – PI (1972 a 1978), Primeira Igreja Batista de Ilhéus – BA (1978 a 1979), Terceira Igreja Batista do Plano Piloto – Brasília (1979 a 1989), Igreja Batista Noroeste de Brasília (interinamente em 1985), Primeira Igreja Batista de Curimatá – PI (interinamente em 2000), e desde 1989, a Igreja Cristã de Brasília. Tomou a iniciativa para a organização das seguintes igrejas: Primeira Igreja Batista de Picos –PI, Igreja Batista do Lago Norte – Brasília, Igreja Batista Noroeste de Brasília (hoje, Igreja Batista Viva Esperança), e a Igreja Cristã de Brasília. Ordenou cerca de 20 pastores e uma pastora, consagrou dezenas de diáconos e diaconisas por onde passou, e celebrou mais de 500 casamentos. É considerando no Distrito Federal um pastor de pastores. Líder denominacional foi presidente da Convenção Batista Alagoana, da Convenção Batista do DF (três vezes), do Conselho de Pastores Evangélicos dos DF (duas vezes); participou de vários organismos batistas como o Conselho de Planejamento e Coordenação da Convenção Batista Brasileira, das juntas administrativas do Seminário Teológico Batista Equatorial e do Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil; e por 20 anos foi professor da Faculdade Teológica Batista de Brasília ensinando as seguintes disciplinas: Estudos de problemas brasileiros, ética cristã, teologia pastoral, teologia contemporânea, ministério urbano, teologia bíblica do Antigo Testamento, e homilética. Como teólogo produziu muitos artigos, teses, e palestras nos mais diferentes lugares, e participou de muitos congressos, seminários, fóruns, retiros, entre eles o Congresso Internacional Lousane II realizado em Manila, Filipinas em 1989. Foi orador de várias assembléias convencionais, e pregou em muitos congressos e igrejas por todo o Brasil. Como poeta e escritor já gestou e publicou cinco livros (Missão da Igreja e responsabilidade social, Voando nas asas da fé, Um sonho coberto de rosas, Suave perfume, e Uma grande mulher), tem quatro prontos para publicação, e está grávidos de mais dez livros que espera escrever e publicar nos próximos oito anos. Na área política assessorou deputado Wasny de Roure, por muitos anos, tanta na CLDF como na Câmara dos Deputados; assessorou por pouco tempo os deputados distritais Peniel Pacheco e Arlete Sampaio; o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, como chefe da Assessoria Parlamentar do MEC, e depois assessor parlamentar do Senador Cristovam Buarque. Nesta área produziu muitos escritos sobre os evangélicos e a política, fez inúmeras palestras, promoveu muitos seminários, e foi fundador e coordenador de vários fóruns, entre eles o Fórum Político Religioso do PT, o Fórum Religioso de Diálogo com GDF, o Fórum Cristão do PT Chegou a Brasília em junho de 1969 e, desde então, a elegeu como sua cidade do coração. Agora, aposentado, deseja dedicar-se a apenas duas atividades essenciais: pastorear graciosamente a Igreja Cristã de Brasília e Brasília, e escrever apaixonadamente. Sua grande ênfase ministerial tem sido o amor cristão, a graça maravilhosa de Deus revelada em Jesus Cristo, a responsabilidade social das igrejas e dos cristãos, e o ministério urbano da igreja.

6 comentários sobre “Deus Mãe

  • Jo 3:17
    Jesus disse ao Pai : -A vida eterna é esta, que conheçam a ti como o único Deus verdadeiro.
    *Ao Pai!!

    Resposta
    • Júlio Borges de Macedo FilhoAutor do post

      Caro Alex, não resta dúvida que Deus é Pai. O que quis ressaltar no sermão é que ele também é mãe. Este é o papel do Espírito Santo na Trindade Santa: Pai, Mãe e Filho.

      Resposta
      • Mãe, segundo a interpretação de vocês. Não segundo ao evangelho pregado pelo próprio Jesus e pelos seus discípulos.
        Não ha personificação nenhuma feminina e muito menos contradição nas traduções bíblicas, pelo contrário, foram achados manuscritos anteriores até mesmo aos achados no mar morto e nenhuma alteração conforme o original foi verificada. Até mesmo porque p Espírito Santo de Deus, não a “mãe”, é o Consolador( parákletos) que não permitiria tamanha discrepância ou distanciamento dos Ensinos de Deus, de forma que chegasse até nós de forma errônea.
        Isto é doutrina estranha, anátema, conforme Atos: 1:8.

        Resposta
      • Isso significa que o Espírito Santo é a pessoa feminina e materna de Deus na Trindade? Pelo menos é isso que eu suponho.

        Resposta
  • Da sistematização das cinco referências ao parákletos no quarto evangelho mencionadas acima, algumas características quanto à sua identidade emergem claras e além da dúvida razoável.

    (1) O parákletos não é Jesus ou o Pai:7 Jesus fala de “outro parákletos”,8 implicando que seus discípulos já possuíam um, que só podia ser Ele mesmo. De fato, como mencionado em 1 João 2:1, Jesus é chamado de “parákletos”.9 E é precisamente Sua [de Jesus] partida, como veremos posteriormente, que abre espaço para o ministério deste outro parákletos, “para compensar a perda da presença visível de Jesus.”10 A idéia de que o parákletos não é Jesus se fortalece pelas diferentes ocorrências, nas quais o parákletos testemunha de Jesus, O glorifica e age como Seu representante. Por outro lado, é evidente que o parákletos não é o Pai, pois é precisamente o Pai quem O envia, em nome de Jesus, e apenas depois que Jesus tenha partido (Jo 14:26).11 Deve-se observar ainda que, ao contrário de Jesus como parákletos, em 1 João 2:1, o parákletos no quarto evangelho não é primariamente um intercessor dos discípulos diante do Pai, mas o ajudador deles em relação ao mundo. Significativamente, contrariando a errônea idéia de que a doutrina da Trindade tenha sido originada em um período posterior ao Concílio de Nicéia (325 d.C.), Tertuliano (160-220 d.C.) claramente identifica o parákletos com o Espírito Santo, distinguindo-O das pessoas do Pai e do Filho. Diz ele, em sua famosa apologia Contra Praxeas:

    …[o Evangelho de João] continua a fornecer-nos declarações do mesmo tipo, distinguindo o Pai e o Filho com as propriedades de cada um. Então também há o Paracleto ou Consolador, acerca do qual Ele prometeu orar ao Pai, e enviá-lo do céu, depois que Ele tivesse ascendido para o Pai. Ele é chamado “outro Consolador”… Assim, a conexão do Pai com o Filho, e do Filho com o Paracleto, produz três Pessoas coerentes, as quais, contudo, são distintas uma da outra. Estes três são uma essência, não uma Pessoa, como é dito “Eu e o Pai somos Um” em respeito à unidade de substância, não à singularidade de número.12

    No mesmo texto, Tertuliano observa:

    O Espírito Santo, de fato, é o terceiro, distinto de Deus [o Pai] e do Filho… Eu testifico que o Pai, e o Filho e o Espírito são inseparáveis de cada um… e que eles são distintos um dos outros.

    Tertuliano então conclui com lógica que dificilmente poderia ser melhorada:

    Além disto, não é o próprio fato de que eles tem nomes distintos [Pai, Filho e Espírito-Paracleto] equivalente a uma declaração de que eles são distintos em personalidade?13

    (2) Que o parákletos não é mera força ou influência é claro das diversas atividades exercidas, possíveis apenas a uma pessoa:14 Ele ensina, guia, é enviado, anuncia, recebe, glorifica, testemunha em favor, relembra, fala, convence, acusa, etc. Além disso, ao parákletos são atribuídos pronomes pessoais. João torna a personalidade do Espírito mais evidente, atribuindo a Ele o título masculino parákletos e referindo-se ao Espírito-parákletos com pronomes pessoais (ékeinos e autós).15

    (3) Com relação às funções do parákletos, fica também evidente que Ele vem para os discípulos e habita com eles, guiando-os, ensinando a respeito de Jesus: Devemos observar, contudo, que João O retrata como o Espírito Santo, como já sugerido, numa função específica: como a presença pessoal de Jesus com os cristãos, durante o período de Sua ausência.

    (4) A respeito do relacionamento do parákletos com o mundo, é óbvio que Ele é hostil ao mundo, colocando este em julgamento por seu pecado de descrença. O mundo não O pode receber, porque não O vê nem O conhece (Jo 14:17).

    O parákletos joanino

    Do estudo quanto à identidade do parákletos no quarto evangelho, algumas questões emergem naturalmente: Se Ele realmente é o Espírito Santo, como mantido pelos cristãos e claramente indicado pelo próprio João: “Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome”16 (Jo 14:26), por que é este título atribuído ao Espírito? Quais aspectos particulares das funções do Espírito Santo são atribuídas ao parákletos? Além disto, por que o título é encontrado exclusivamente no evangelho joanino? Para estas questões cruciais voltaremos nossa atenção, mais tarde, neste estudo. Nesta seção concentraremos a atenção nos aspectos lingüísticos do termo.

    O background histórico e o significado lingüístico do termo parákletos no Evangelho de João têm sido buscados em uma variedade de fontes e alternativas,17 e seria desnecessário repeti-los aqui. Esforços têm sido feitos, por exemplo, na tentativa de se encontrar um equivalente semítico para o título grego. Tais tentativas parecem enfatizar a convicção de que se uma palavra hebraica ou aramaica, que tenha servido de base para a tradução de parákletos, fosse encontrada, provavelmente saberíamos o significado primário do termo. Contudo, até o momento, os mais minuciosos estudos não conseguiram produzir um candidato semítico verdadeiramente aceitável.18 De fato, como Brown observa, “Esta busca para um equivalente hebraico pode ser em vão,”19 provavelmente porque tanto no hebraico quanto no aramaico, a palavra foi transliterada do grego.20 Além disto, como indicado por Johannes Behn, no seu clássico estudo do termo, no Theological Dictionary of the New Testament, o uso joanino do termo parákletos não se ajusta facilmente à história da palavra em fontes seculares.

    Concluímos, então, que, embora os antecedentes históricos, religiosos e lingüísticos do termo parákletos possam ser considerados importantes para se determinar o seu significado no Novo Testamento, as decisões quanto a tal significado serão consideravelmente subjetivas e de valor limitado, ao mesmo tempo que limitador. O significado de parákletos tem sido traduzido por uma variedade de palavras21 tais como “Consolador,” “Advogado,” “Ajudador,”22 “Espírito de Verdade,” “Amigo,” etc. No entanto, deve-se observar que nenhuma destas traduções consegue capturar de forma plena a complexidade das funções atribuídas ao parákletos no quarto evangelho.

    Se, a palavra parákletos usada por João em seu evangelho não parece ser uma tradução direta de um título hebraico específico, nem tem ela sua origem em um título no grego secular, talvez isto sugira que foi o uso cristão que deu ao termo uma conotação exclusiva a ele e, portanto, o seu significado é melhor decidido pelo contexto do que por deduções léxicas. O que é, portanto, o parákletos? Gerard Manley Hopkins está provavelmente correto em sua resposta, lembrando que o termo é frequentemente traduzido por Consolador, mas o parákletos faz muito mais do que consolar. A palavra é grega, não possui um equivalente exato em nossa língua. É esclarecedor ter em mente que Jerônimo, ao traduzir parákletos, tinha à sua disposição, além dos termos latinos advocatus e consolator, o costume da transliteracão. Enquanto ele adota advocatus em 1 João 2:1, no evangelho, contudo, ele seguiu a alternativa da transliteração, mantendo a palavra transliterada como Paracleto. R. Brown apropriadamente observa que seria sábio fazermos o mesmo em tempos modernos, e optarmos por Paracleto, uma transliteração aproximada do grego parákletos, o que preserva a singularidade da palavra, sem enfatizar um único aspecto do conceito em detrimento de outro. No mínimo, isto serve como advertência para aqueles que querem comprimir o termo dentro de limites dogmáticos.

    Devemos observar, ainda, dois aspectos básicos quanto à identidade do parákletos no quarto evangelho: Por um lado, embora ele possa ser considerado o “dom da nova era,” o parákletos não é um estranho, uma “novidade,” ou simples invenção joanina, desconectado de raízes bíblicas. De fato, João “não pinta um quadro sem paralelo em outras descrições do Espírito Santo no Novo Testamento, mas enfatiza certos aspectos que já estão presentes [aí], e dá a eles nova orientação.”23 Esta conexão e convergência de identidade entre o Espírito Santo e o parákletos será o foco de discussão na seção seguinte deste trabalho.

    Por outro lado, João não faz uma simplista identificação entre o Espírito e o parákletos, sem os refinamentos teológicos que são uma marca inconfundível do seu evangelho. Devemos ter em consideração que, independentemente do que ele tenha dito no evangelho acerca do parákletos, ele está escrevendo tendo em mente a obra completa de Cristo na cruz. Ele escreve da perspectiva do período posterior à ascensão, antecipando o relacionamento entre o ressuscitado Cristo e os Seus discípulos, além do relacionamento dEle com o mundo, através do parákletos. Portanto, o parákletos incorpora uma enorme complexidade de funções. Ele é uma testemunha de defesa de Jesus, e o representante dEle no contexto do Seu julgamento pelos Seus inimigos. O Paracleto é, por outro lado, um consolador dos discípulos, assumindo o lugar de Jesus entre eles. O Paracleto é o mestre, guia, e conselheiro dos discípulos e, assim, um ajudador. O relacionamento entre o parákletos e Jesus é o tema da última seção do nosso estudo. E é precisamente aí que detectamos a profunda contribuição teológica de João em relação à pessoa do parákletos.

    O Espírito-parákletos

    Pneumatologia tem sido considerada uma das mais distintivas características do quarto evangelho.24 Referências diretas e indiretas ao Espírito são inúmeras e complexas, de tal forma que qualquer estudo do tópico seria, no mínimo, muito extenso.25 Devemos notar que neste evangelho o Espírito Santo é regularmente associado com Jesus (como em 1:19-34; 3:5, 7:39, etc). A plena apresentação do Espírito Santo, contudo, é encontrada nas passagens concernentes ao parákletos (14:16, 17, 26; 15:26; 16:7-15).

    Em João não encontramos uma fórmula trinitariana como em Mateus26 ou Paulo,27 mas há, pelo menos, quatro instâncias do modelo trinitário (1:29-35; 14:16, 26; 16:15). Mais claramente do que qualquer outro escritor do Novo Testamento, João apresenta a divindade do Filho, e a personalidade do Espírito. Mais enfaticamente do que qualquer outro ele indica a distinção do Espírito, tanto em relação ao Pai como ao Filho. Mais diretamente do que qualquer outro, ele indica a missão do Espírito-parákletos. Nisto João estabelece os fundamentos para a doutrina de uma Trindade co-igual, e fornece muito do material sobre o qual esta doutrina seria formulada.

    Voltando nossa atenção para o relacionamento entre o parákletos e outros textos dos evangelhos sinóticos e do livro de Atos, observamos em primeiro lugar que no quarto evangelho, se Jesus havia estado com os discípulos por alguns poucos anos, e voltou para o Pai, o Espírito Santo, contudo, permanece para sempre com eles, respondendo a questões enfrentadas pela Igreja no final do primeiro século. A doutrina do parákletos em João implica a partida de Jesus do mundo e, naturalmente, o parákletos é retido em sua plenitude até a cruz (Jo 7:39). Não é senão quando Cristo afirma “Eu vou para o meu Pai”, que torna-se necessário, ou mesmo possível, acrescentar: “O Pai vos enviará um outro parákletos.” O Espírito é o outro parákletos, que assume o lugar de Cristo, como advogado dos discípulos. Até então, Jesus fôra o defensor deles enquanto estivera na Terra (Mc 2:18, 24). Agora Jesus cumpre este ofício “junto ao Pai”, enquanto o Espírito, cuja esfera de ação é a Terra, silencia os adversários terrenos do corpo de Cristo, ao longo da era cristã.

    Esta função forense de “dar testemunho”, “falar pelos discípulos” e “condenar o mundo”, enfatizada nos textos do parákletos joanino, não está dissociada da mesma ênfase em outros textos em que o Espírito Santo aparece com as mesmas funções. Isto é evidente, por exemplo, em Mateus 10:20 (“visto que não sois vós quem falais, mas o Espírito do vosso Pai é quem fala por vós”), Marcos 13:11 (“Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas o que vos for concedido naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo”) e Atos 6:10, onde o Espírito Santo é apresentado protegendo os discípulos também em contexto de julgamento.

    Além disto, se o parákletos vem apenas depois da partida de Jesus, o mesmo é verdade na descrição de Lucas em Atos, quanto à vinda do Espírito. Isto se torna ainda mais distintivo quando observamos que a compreensão de Lucas da ascensão de Jesus partilha com João o conceito da ressurreição (Jo 20:17). O Pai concede o parákletos a pedido de Jesus (Jo 14:16), da mesma forma que o Pai concede o Espírito Santo àqueles que O pedem (Lc 11:13). Se o parákletos testemunha em favor de Jesus por meio do testemunho dos discípulos, assim é a vinda do Espírito Santo em Atos, pois é precisamente Ele quem impulsiona os discípulos a falarem de Jesus e a demonstrarem ao mundo que Deus O havia ressuscitado.

    Verificamos um íntimo relacionamento entre João 15:26, 27 e Atos 5:32: “Ora, nós somos testemunhas destes fatos, e bem assim o Espírito Santo, que Deus outorgou aos que Lhe obedecem”.28 Encontramos ainda uma convergência entre a função de ensino do parákletos em João 14:26, onde é afirmando que “Ele ensinará [aos discípulos] todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito,” e a função do Espírito Santo em Lucas 12:12: “…o Espírito Santo vos ensinará, naquela mesma hora, as coisas que deveis dizer.” Desta forma, quando João 14:26 identifica o parákletos como o Espírito Santo, “isto não é mera junção editorial de dois conceitos distintos”,29 como R. Brown observa. As similaridades e convergências entre o parákletos e o Espírito Santo emergem mesmo num estudo comparativo superficial, entre aquilo que João diz e aquilo que os evangelhos sinóticos e o livro de Atos, em particular, afirmam a respeito dele. Tentar se evadir à força das evidências, sugerindo que o Espírito-parákletos é Pai ou Filho, ou apenas uma força, o ruach/pneuma30 de Deus, é simplesmente fazer uma leitura equivocada, preconceituosa e dogmática de evidências irrefutáveis, leitura informada por conclusões e preconceitos desenvolvidos fora do círculo da revelação.

    Parákletos e Jesus

    É importante observar que no pensamento joanino encontramos uma íntima conexão entre o parákletos e Jesus. Praticamente tudo aquilo que João afirma deste personagem é dito de Jesus em outras partes do evangelho. Em outras palavras, o relacionamento entre o primeiro parákletos [Jesus]31 e o segundo [o Espírito Santo] é dominante no quarto evangelho. Não é de surpreender que o Espírito seja chamado pelo próprio Jesus, como já visto, de “outro parákletos.” O detalhado e preciso paralelismo entre o ministério do parákletos e o ministério de Jesus é exato para ser entendido como mera coincidência. Assim, uma vez que o parákletos pode vir apenas quando Jesus partir, o parákletos, para todos os efeitos, “é a presença de Jesus quando Jesus está ausente”32 .

    Resposta

Deixe um comentário para Júlio Borges de Macedo Filho Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *